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Como tornar os arbustos mais resistentes em espaços urbanos

Artigo de opinião de Rosa Moreira, Eng.ª Agrónoma, promotora do site A Cientista Agrícola

Actualmente, os ambientes urbanos estão sujeitos a condições ambientais mais problemáticas do que as áreas rurais. É sabido que as áreas urbanas têm temperaturas cerca de 5 a 7 °C mais altas que as áreas rurais e cuja mitigação pode ser alcançada pela transpiração das plantas. As plantas, graças à sua sombra e transpiração, são capazes de melhorar as condições urbanas para os habitantes, mas também para os turistas que privilegiam de zonas com infra-estruturas verdes para passar tempo ao ar livre. Assim, a identificação e utilização de espécies ornamentais tolerantes permite a redução dos custos de manutenção destas plantas preservando o ambiente agradável dos espaços verdes urbanos.

Os arbustos: saiba mais sobre estas plantas

Os arbustos ou plantas ornamentais são plantas cultivadas pela sua beleza, sendo muito usadas na arquitectura de interiores e, principalmente, em espaços urbanos exteriores. Estas plantas são muito utilizadas nos parques das cidades, pois para além de precisarem de pouca manutenção, contribuem para um paisagismo atraente devido à presença de flores vistosas e de diferentes cores e às diferentes formas que estas plantas podem assumir. Estas espécies vegetais criam ecossistemas valiosos onde se encontram, pois são capazes de controlar a temperatura, a absorção e o armazenamento de carbono, estabilizar o solo e garantir o equilíbrio hídrico do ecossistema.

Do ponto de vista ornamental, os arbustos caracterizam-se por diferentes características (elevado número de ramos, que influencia o seu padrão de crescimento; formas curvadas, que reduzem a sua transpiração e melhoram as qualidades visuais das infra-estruturas verdes; diferentes períodos de floração; e cores das flores) que acrescentam interesse e variedade à paisagem.

Além disso, são plantas conhecidas pela sua maior adaptabilidade a condições de stress, fornecendo ecossistemas valiosos, que podem melhorar a qualidade de vida, mas também enfrentam inúmeros stresses ambientais, como calor, sal, seca, ventos extremos e pragas, que podem reduzir ou anular este benefício. Dentro dos principais problemas destaca-se a falta de água e baixa qualidade da mesma. É verdade que estas plantas são capazes de se adaptarem mais e melhor a condições de seca do que as árvores, pois possuem uma capacidade de regeneração dos caules maior, permitindo-lhes ter maior resistência. Por esta razão, o uso de arbustos para revegetação em áreas semiáridas tem aumentado devido à sua capacidade de adaptação a condições severas de seca. A salinidade das águas também é outro problema que afecta estas plantas.  Mesmo sendo espécies que apresentam algum grau de tolerância à salinidade quando expostas a este stress, podem apresentar reduções de qualidade sendo este um factor importante na selecção de plantas ornamentais para uso em jardins e paisagismo urbano.

No entanto, apesar da sua maior resistência, é necessário controlar estes problemas de forma a garantir a sobrevivência destas plantas e aumentar a sustentabilidade dos espaços urbanos.

Várias são as propostas para gerir um espaço verde urbano no que diz respeito às plantas ornamentais. Mas, em todas um esquema de selecção de espécies inclui sempre a tomada de atenção ao local (ou seja, restrições ambientais e culturais), aos factores sociais (ou seja, estética e funções das plantas) e factores económicos (ou seja, custos de plantação e manutenção).

– A importância da escolha do cultivar

Um factor chave para a sobrevivência dos arbustos ornamentais nas cidades é a selecção de plantas mais estáveis ​​e resilientes.

Já dizia Capotorti no seu estudo que, é essencial colocar “a planta certa no lugar certo”. A escolha de uma espécie deve ser feita com base na sua adaptabilidade às condições ambientais, nos seus valores ecológicos, na sua necessidade de manutenção e eventuais vantagens que possa trazer. Cada espécie tem uma faixa óptima de desenvolvimento; as temperaturas mínimas e máximas devem ser consideradas na selecção das espécies vegetais a serem utilizadas em determinadas regiões ou áreas geográficas.

Neste contexto, é essencial identificar uma mistura diversificada de espécies lenhosas bem-adaptadas às condições determinadas pelas alterações climáticas. A escolha de uma planta para esta finalidade deve ser feita com base na sua plasticidade fisiológica, ou seja, a variedade de habitats aos quais uma espécie pode se adaptar. Muitas plantas ornamentais podem ter um grau de plasticidade que permite a sua adaptação a, por exemplo, intensidades de luz mais baixas, temperaturas extremas, situações de seca, etc.

Além disso, as sombras de prédios ou plantas altas em áreas verdes podem ter efeitos negativos noutras plantas. Portanto, a combinação de diferentes espécies vegetais, como plantas herbáceas, arbustivas e ornamentais lenhosas, deve ser cuidadosamente considerada. O aspecto visual e a qualidade harmoniosa da área dependem do estado sanitário das plantas e da sua correcta distribuição.

A complexidade da escolha correcta das espécies vegetais reduz o número de espécies consideradas mais ‘confiáveis’ para plantação em espaços urbanos. No entanto, a biodiversidade dos espaços verdes urbanos é importante porque reduz os riscos derivados de pragas e doenças e das alterações climáticas e, por conseguinte, melhora a resiliência do ecossistema em ambiente urbano.

– A aplicação de Bioestimulantes em arbustos

Infelizmente, as novas plantações em ambiente urbano são frequentemente feitas em solos pobres e que recebem pouca ou nenhuma irrigação suplementar, o que diminui a sua sobrevivência. A tolerância de plantas ornamentais pode ser induzida ou activada por aplicação de bioestimulantes. 

Após a muda das plantas para o ambiente urbano final, estas ficam sujeitas a altos níveis de stress pós-transplante, causados ​​por factores como perda de raízes, stress hídrico, insectos, doenças e mudanças no solo. Portanto, numa fase inicial, é essencial minimizar o stress para as plantas com as melhores condições de crescimento possíveis. Para este efeito, os bioestimulantes têm sido amplamente utilizados nos últimos anos. Estes bioestimulantes contêm princípios activos e/ou agentes orgânicos capazes de actuar, sobre a totalidade ou uma parte das plantas, fazendo com que necessitam de menos nutrientes e irrigação adicionais e tenham maior resistência a doenças, aumentando assim a sua produtividade.

Os bioestimulantes reduzem a necessidade de fertilizantes e são produtos à base de matérias-primas naturais, como proteínas hidrolisadas e aminoácidos de subprodutos animais e vegetais, extractos de microalgas e algas marinhas, substâncias húmicas, extractos vegetais e microrganismos.

Por exemplo, nas gardénias, foram analisados ​​os efeitos no crescimento por aplicação de bioestimulantes e assim, avaliar a possibilidade de reduzir a fertilização fosfatada. Sob adubação fosfatada reduzida, o tratamento com bioestimulantes, favoreceu o crescimento das gardénias. Podes consultar mais sobre o estudo aqui 10.17660/ActaHortic.2021.1327.67

– Mulching 

Mulching, ou cobertura morta em áreas urbanas tem múltiplas funções. A cobertura morta pode ser utilizada para controlo de ervas infestantes, evitando a competição entre plantas ornamentais e espécies espontâneas. E, pode também ser útil para reduzir a perda de água do solo e melhorar a eficiência do uso da água das plantas ornamentais utilizadas na área verde.

– Combinação/consociação de plantas 

A combinação de plantas é um parâmetro importante que deve ser cuidadosamente considerado em áreas urbanas para reduzir custos de manutenção e evitar problemas agronómicos. A combinação de plantas deve ser planeada de forma e evitar a competição por nutrientes ou água ao nível da raiz. A densidade da planta e a distribuição das espécies deve ser feita colocando as plantas com raízes superficiais e profundas mais próximas para explorar os nutrientes em diferentes profundidades. Por exemplo, as árvores, com as suas raízes podem melhorar a infiltração de água no solo, beneficiando as espécies que sofrem por estarem em solos pesados ​​e compactos. Portanto, a colocação destas plantas em solos com árvores resulta numa boa simbiose. Também em solos poluídos, espécies com alta absorção de metais pesados ​​podem reduzir a concentração para espécies sensíveis, evitando o aparecimento de sintomas de fitotoxicidade.

Já as espécies antagónicas que produzem compostos nocivos conhecidos como, moléculas alelopáticas, devem ser plantadas a uma distância mínima para evitar efeitos negativos nas plantas mais próximas. Todas as situações de antagonismo devem ser evitadas porque podem induzir perdas de valor ornamental, como amarelar das folhas e crescimento anormal. As substâncias alelopáticas podem causar a morte de árvores ou espécies herbáceas ao redor das plantas. Por exemplo, a nogueira preta produz produtos naturais que podem induzir a morte de pinheiro branco (Pinus strobus L.) e pinheiro vermelho (Pinus. resinosa Aiton) e chicotes de bétula branca (Betula L. spp.).

O aumento da resistência das plantas ornamentais em ambiente urbano pode ser alcançado por uma combinação de diversas acções. O uso de bioestimulantes, de coberturas mortas ou uma combinação apropriada de espécies pode fornecer efeitos positivos na mitigação do stresse abiótico em áreas urbanas. Neste contexto, espécies silvestres ou subutilizadas podem ser oportunamente seleccionadas para melhorar ou preservar a qualidade ornamental.

Qual a sua opinião/experiência sobre este assunto? Costuma ver muitos arbustos em contexto urbano?

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