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Colheita da amêndoa em Portugal com sabor agridoce

Artigo de opinião de António Saraiva, Director Executivo da Portugal Nuts – Associação de Promoção de Frutos Secos

António Saraiva

Estamos em plena época de colheita da amêndoa. Trata-se de um período de enorme expetativa para os proprietários e que determina o êxito da campanha. De Norte a Sul do país, avaliam-se os resultados e questionam-se os efeitos das decisões técnicas tomadas ao longo do ciclo cultural. As condições do tempo verificadas ao longo da campanha, justificam alguns insucessos ou atenuam alguns pessimismos. À custa de muito investimento em melhores plantas e tecnologia, os modernos pomares regados, diferentes dos amendoais de sequeiro, a capacidade de antever incidências, de agir preventivamente e de monitorizar os efeitos sobre o crescimento das árvores e produtividades esperadas, permitiu, ainda que de forma limitada, contornar alguns dos obstáculos que se foram levantando ao longo da campanha. A seca vivida este ano, em larga parte do país, e as restrições impostas pela EDIA ao uso da água na região de Alqueva, são evidentes exemplos das dificuldades vividas.

Mas estas contrariedades serão mascaradas pelo aumento da produção dos amendoais nacionais. Este aumento terá como principal justificação a entrada em plena produção de amendoais novos, o que fará com que o volume total de produção nacional volte a crescer.

Os dados de julho do INE (Estatísticas da Produção Vegetal), mostram que 2022 foi o melhor ano de produção de amêndoa. Desde 2010, que a quantidade de amêndoa produzida no país tem crescido anualmente a uma taxa média de aproximadamente 15,6%. E demonstram também que é a região do Alentejo a que mais tem contribuído para este crescimento. Em 2022, a quantidade produzida no Alentejo duplica a produzida em Trás-os-Montes que foi a região líder até 2020.

Portugal é já o sexto produtor mundial de amêndoa

A mais recente estimativa de colheitas do International Nut & Dried Fruit Council (INC), revela que Portugal é já o sexto produtor mundial de amêndoa. Três quartos da produção mundial estão concentrados nos EUA (76%), 10% está na Austrália e o pódio completa-se com 4% em Espanha. Isto deixa os restantes 15% para os demais países. Portugal terá pouco mais de 1,3% da quota, mas não arrisco muito ao afirmar que com os dados reais da colheita deste ano, podemos chegar ao 5º lugar, ultrapassando a Turquia (1,7%). Por certo que consolidaremos esta posição no futuro, com a entrada em plena produção dos pomares jovens mais recentemente instalados, ou subiremos mais um lugar em poucos anos, passando a Itália.

Não se pode ignorar o que os números revelam. Ainda que a nossa quota mundial pareça ínfima, quando olhamos para a Europa e considerando a Turquia, somos o quarto produtor no espaço europeu, a um passo do terceiro lugar, já com a colheita atual. Isto mostra como em relativamente pouco tempo, somos um ator internacional com papel crescente no aprovisionamento da Europa que, a par da Ásia, é o continente com maior quota do consumo global de frutos secos (31%) e que contribuímos para a existência de soluções de aprovisionamento mais próximas para a indústria e para os consumidores europeus.

Com este potencial e com os investimentos que se continuam a fazer em Portugal, em plantações e unidades de transformação, como pode o país olhar para esta fileira com indiferença e sem sinais de um forte apoio para que nos tornemos ainda mais competitivos?

Este desempenho do amendoal moderno nacional tem por base a rega e é a prova do melhor aproveitamento do investimento público no regadio.

Mas a predominância dos EUA neste setor são também uma ameaça, pelo poder que têm na determinação dos preços. A Califórnia está a colher amêndoa e as previsões são favoráveis, com bons calibres e com stocks mais altos que o normal (por via duma redução global no consumo). Isto faz baixar os preços na Europa, pela necessidade da amêndoa americana em escoar existências. Situação crítica para os produtores portugueses que vendem uma parte significativa das suas produções para Espanha onde a oferta americana se faz sentir. Uma redução percentual do preço na casa dos dois dígitos, ultrapassa as previsões mais negativas dos produtores nacionais, reduzindo a sua rentabilidade. Ficam com menor capacidade de absorver aumentos do custo dos fatores de produção ou do preço da água, repensando ou adiando as suas intenções de novos investimentos.

Para o futuro desta fileira, é crucial que se olhe para ela e por ela, e sem decisões que hipotequem o seu potencial produtivo.

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