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Pedro Ferraz da Costa: “há muitas restrições aos fundos comunitários”

Pedro Ferraz da Costa, administrador da Agrovete e antigo líder da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), diz que há burocracia a mais na decisão dos apoios comunitários, o que leva a um menor investimento na agricultura. Mas, não responsabiliza o ministro Capoulas Santos, mas sim a Política Agrícola Comum.

Em entrevista ao agriculturaemar.com, o administrador da Agrovete pede “um esquema mais liberal de apoio” porque “os agricultores já deram prova de que sabem investir bem e que conseguem resultados”.

 

Como vê a agricultura portuguesa?

A agricultura em Portugal neste momento está a dividir-se entre uns que têm uma escala que era viável no passado mas que vai ser difícil manter no futuro e outro conjunto de agricultores que têm crescido, que têm entrado em áreas novas, que têm conseguido afirmar-se e que estão muito associados às culturas novas, a todas as coisas que caracterizaram a evolução dos últimos anos e que no fundo foram os que fizeram com que o sector agrícola, em termos de valor acrescentado bruto (VAB), nas exportações tivesse, nos últimos anos, uma performance melhor do que a da economia global.

O País precisa de muito mais empresas dessas para conseguir crescer mais depressa e fazer face a alguns problemas muito complicados que ainda temos para resolver.

Era uma coisa que ninguém esperava muito, que a agricultura tivesse uma posição tão destacada. É evidente que nos outros sectores da indústria e dos serviços também há sub-sectores a crescer brutalmente.

O País precisa de muito mais empresas dessas para conseguir crescer mais depressa e fazer face a alguns problemas muito complicados que ainda temos para resolver.

Com as empresas que temos, a agricultura pode continuar a crescer?

Os números dos últimos anos são bons, mas o crescimento para um patamar maior implica muito investimento. Quer de substituição quer de modernização. As condições macroeconómicas do País não são muito favoráveis, temos uma taxa de poupança muito baixa.

É evidente que em termos macroeconómicos tem de haver um equilíbrio, entre a poupança e o investimento, porque se não houver poupança interna só é possível investir com dinheiro externo. E se neste momento a conjuntura externa é muito favorável, pode deixar de o ser de um momento para o outro.

As condições que existem agora, em termos de taxa de juro, preços relativamente moderados da energia e uma grande disponibilidade de liquidez não se voltam a repetir e podem acabar em qualquer altura. Acho que as dúvidas se centram mais nesses aspectos do que propriamente na capacidade do sector em avançar.

Acredita no objectivo Portugal estar a exportar 2 mil milhões de euros em frutas e legumes em 2020?

Depende muito das condições de investimento. Hoje em dia as pessoas dominam as tecnologias. Nunca sabemos o que está em curso em termos de investimento. E os fundos comunitários têm tido um percurso um pouco errático, nunca se sabe quando acaba quando fecha como funciona…

Acho que se houvesse mais confiança naquilo que o Governo diz, em termos de fundos comunitários que se vierem a concretizar, que as coisas melhoravam e que esses objectivos eram atingíveis.

Fala-se muito em taxa de execução dos fundos comunitários. Temos investidores para gastar esses fundos todos?

Temos. O que não temos tido é aprovação de projectos.

Porquê?

Porque há muitas restrições aos fundos comunitários.

Em que sentido?

Os critérios de decisão são influenciados por alguns factores que estão dependentes da utilização de imóveis, se tem energia solar, se tem automatizações, se cria postos de trabalho e acho que os agricultores já deram prova de que sabem investir bem e que conseguem resultados. Portanto, deveríamos ter um esquema mais liberal de apoio.

A agricultura conseguiu este investimento muito elevado do VAB apesar da redução do emprego. Temos hoje em dia é empregos mais qualificados e com remunerações mais elevadas e isso é que é o futuro que todos desejam.

Como avalia a actuação do ministro Capoulas Santos?

Acho que uma maior aderência da realidade às promessas, no que diz respeito aos projectos de investimento, era importante. Não digo que isso seja da responsabilidade do ministro, mas de facto não há muito dinheiro e a agricultura há muitos anos que não é uma grande prioridade.

E para Capoulas Santos é uma prioridade?

Acho que é mais ou menos como sempre foi.

Preferiu a anterior ministra, Assunção Cristas?

Acho que com ela houve uma altura em que a execução era mais rápida.

A Dinamarca hoje em dia tem um número reduzido de agricultores, com uma dimensão média que tem crescido e com uma preparação profissional muito boa.

Mudando de assunto, acha que vamos conseguir caminhar para uma agricultura totalmente biológica? É possível alimentar a população?

Eu assisti aos estudos e ao lançamento da produção biológica em 100% do território da Dinamarca. Eles andaram 30 anos a preparar isso.

Todos sabiam que aquele objectivo era para ser atingido e não era para haver mudanças cada vez que mudasse o ministro ou o governo. Vão ter tudo biológico a partir de 2025. São objectivos muito exigentes, que exigem uma constância de esforço e uma política que seja compreendida por toda a gente.

A Dinamarca hoje em dia tem um número reduzido de agricultores, com uma dimensão média que tem crescido e com uma preparação profissional muito boa.

Mas, consegue-se alimentar um país só com agricultura biológica?

Se eles venderem uma couve biológica por 10 e importarem 2 normais por 5… Qual é o problema de importar se exporta? Muitos desses produtos têm um valor muito elevado no mercado, compensam os custos.

Mas, acho que a agricultura biológica se vai restringir a várias áreas. Quer dizer, havemos de encontrar na Europa, para o mercado europeu e até para exportação, soluções para melhorar a qualidade biológica do leite sem corrermos o risco de não termos aprovisionamento.

É preciso fixar objectivos ambiciosos, saber quais são os factores de sucesso e o que é preciso fazer e depois seguir esse caminho durante décadas.

Acho que o BE e o PCP já tinham vindo propor nacionalizações de terra e outras coisas se não estivéssemos na União Europeia.

Mas essa estabilidade política…

Em Portugal não tem sido um grande problema, porque a Política Agrícola Comum é uma âncora comum, portanto não há grandes mudanças. Acho que o BE e o PCP já tinham vindo propor nacionalizações de terra e outras coisas se não estivéssemos na União Europeia.

Por isso, aí há alguma segurança, ninguém tem medo em relação a esse respeito, embora ainda haja gente que não recebeu toda a terra que, digamos, lhe foi roubada.

O papel de algumas culturas geneticamente modificadas tem sido espantoso.

O que pensa dos OGM? Há muitos movimentos contra os produtos geneticamente modificados.

São críticas bem intencionadas, com certeza, mas que sofrem de muita ignorância. O papel de algumas culturas geneticamente modificadas tem sido espantoso. Praticamente acabou com o raquistimo no Sudeste Asiático, há muitas coisas muito positivas, e o crescimento populacional vai exigir que nos dediquemos ao desenvolvimento de novas variedades usando essas técnicas.

A Agrovete esteve na AgroGlobal como patrocinador e não como mero expositor. Porquê?

A AgroGlobal tem conseguido fazer uma feira muito profissional e que corresponde muito à necessidade das empresas terem contactos com clientes que estão interessados em inovação. Logo a Agrovete tinha de ser patrocinador deste certame.

A Agrovete aproveitou para divulgar inovação na automatização nos estábulos de vacas leiteiras, uma manga electrónica que permite fazer registo e separação de ovinos.

Há sempre alguns negócios, mas é uma feira mais para contactar com os clientes e ter conversas mais descontraídas; até porque a vida de agricultor é muito dura. Fornecermos informação de uma forma agradável e no enquadramento da AgroGlobal, que é bonito e onde todos gostam de estar, é muito útil ao agricultor.

Que inovação levou à AgroGlobal?

Por exemplo, uma manga electrónica que permite de uma forma muito prática fazer registo e separação de ovinos. Um agricultor, por exemplo, que queira separar as ovelhas num grupo abaixo de 40 quilos e outro acima de 40 consegue passar mil ovelhas numa hora pela máquina e ter essa divisão feita. Isso antigamente era feito por várias pessoas, uma balança e muito tempo gasto. Pode usar esta tecnologia para a reprodução, por exemplo.

É um investimento muito caro?

Não, não chega a 20 mil euros. E num enquadramento actual de ser muito difícil arranjar mão-de-obra, estas são as soluções do futuro.

É tecnologia Agrovete?

Não. É neozelandesa, eles são os melhores do Mundo nesta área. É uma solução muito profissional, muito testada e nós como empresa não podemos correr o risco de estar a pôr soluções no mercado que não sabemos se vão funcionar.

Também apresentou as novas sementes de Inverno.

Sim, temos variedades novas de cereais de Inverno. A iniciativa dos supermercados Continente de fazer pão com cereais de qualidade tem sido um grande sucesso. Tem acordo com agrupamentos, como a Cooperativa de Beja, a Cersul, que recolhem a semente dessas variedades especiais. De selecção tradicional.

Para o nosso leitor, que o viu durante tantos anos à frente da CIP, o chefe do patronato, como explicar que esteja na agricultura?

Eu já estava antes na agricultura. A Agrovete foi fundada em 1962. E todos os sectores são iguais, têm algumas características diferentes, mas uma coisa que é marcante e que condiciona o futuro é a capacidade de inovar e de nos adaptarmos aos desafios do futuro. E a agricultura tem sido um terreno bom nesse aspecto. Eu quando estava na CIP continuei a trabalhar na Agrovete.

Agricultura e Mar Actual

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