A Coordenadora Europeia Via Campesina (ECVC), que representa os camponeses, os pequenos e médios agricultores e os trabalhadores agrícolas de toda a Europa, considera que “enquanto os agricultores da UE [União Europeia] enfrentam uma crescente pressão económica e a instabilidade geopolítica se intensifica, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o comissário do Comércio, Maroš Šefčovič, chegaram à Austrália para finalizar um acordo comercial que abrange sectores agrícolas sensíveis, como o açúcar, a carne de bovino e a carne de borrego”.
Esta iniciativa surge num “momento crítico: a UE enfrenta as consequências da guerra no Irão e a crise em curso no Médio Oriente, enquanto, em todos os Estados-membros, crescem as preocupações com a especulação sobre os preços da energia e o seu impacto nos custos de produção agrícola”, avança um comunicado de imprensa da Via Campesina.
Andoni García Arriola, membro do comité de coordenação da Via Campesina, alerta que as negociações carecem, mais uma vez, de transparência, com quotas de importação essenciais ainda indefinidas. “O que é claro é que esta Comissão Europeia demonstra, mais uma vez, um profundo afastamento do sector agrícola”, explica.
A Comissão Europeia “está a ignorar sistematicamente as conclusões do Diálogo Estratégico sobre o Futuro da Agricultura na UE, publicado em Setembro de 2024. Este relatório — resultado de um longo processo para alcançar um consenso entre as partes interessadas em toda a cadeia alimentar europeia — apelou explicitamente a uma reforma fundamental da política comercial da UE. No entanto, em vez de dar ouvidos a este apelo, a Comissão parece continuar com as suas práticas habituais no meio de uma crescente turbulência”, salienta o mesmo comunicado.
“Utilizar a agricultura como moeda de troca em acordos comerciais multi-sectoriais não só contraria as recomendações do Diálogo Estratégico, como também constitui uma afronta direta aos agricultores que lutam para sobreviver, bem como à soberania alimentar europeia”. “O nível de ameaça para a Europa está a aumentar com as numerosas crises geopolíticas, e a soberania alimentar nunca desempenhou um papel tão crucial na segurança dos cidadãos europeus”, acrescenta García Arriola.
Para a Via Campesina, “a agricultura não tem lugar em tais acordos. Os responsáveis pelo comércio da UE devem abandonar esta abordagem e concentrar os seus esforços numa revisão radical da política comercial agrícola europeia”.
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