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Raças autóctones portuguesas: o estranho caso dos bovinos algarvios

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Artigo de opinião do site A Cientista Agrícola

Autor do artigo: Mário Picoto PereiraEngenheiro da Produção Animal

email: mario_j_pereira@hotmail.com

LinkedIn – www.linkedin.com/in/mário-picoto-pereira-35781114b

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”

Portugal tem uma grande variedade de raças autóctones (animais), sendo um importante ponto de biodiversidade do mundo, possuindo aproximadamente 57 raças reconhecidas.

Este património genético apresenta um papel insubstituível na adaptação à percentagem desfavorecida, cerca de 60% do território português. Estes animais são o fruto do trabalho secular de selecção pelo povo português, segundo as funções de trabalho na faina diária do campo, no auxílio nos trabalhos do mar, na produção de carne, leite, ovos, lã e tracção.

Com o decorrer do tempo, a modernização da agricultura, o aumento e desenvolvimento tecnológico, o aumento das máquinas agrícolas, a introdução de raças exóticas, alterações na agricultura, a desertificação do meio rural, levaram a maioria das nossas à beira da extinção.

O QUE É FEITO DOS BOVINOS DE RAÇA ALGARVIA?

Falo-vos dos bovinos algarvios, ou melhor, dos de raça algarvia. Uma raça incerta no acaso da conjuntura acima descrita, uma raça já dada como extinta, recuperada e a caminhar para um aumento e preservação do seu efectivo.
São animais médios, de aspecto roliço e compacto, dóceis, explorados tipicamente no minifúndio disperso da região do Algarve, do Algarve português de outros tempos.

Fonte da imagem: A Raça Bovina Algarvia: mito ou realidade?

Exploração e Alimentação

O modo de exploração desta raça é de dois tipos: semi-estabulação e estabulação permanente.
A sua alimentação basicamente é pobre e ronda o aproveitamento dos subprodutos principais da agricultura, nomeadamente: restolhos, alimento dos sapais, canoilo do milho, erva natural da primavera, diferenciando-se de acordo com a estação do ano. É uma raça sem sistema rígido de alimentação.

Animais semi-estabulados:
• A sua alimentação é à base de fenos constituídos por ervas espontâneas, maioritariamente gramíneas naturais que se desenvolvem entre as favas já ceifadas, por cevada, aveia e folhas da bandeira do milho;• Palha de fraca qualidade e folhas de figueira;
• Erva natural como erva azeda (oxalidácias) e palha de trigo (à descrição).
• Uma alimentação monótona e qualitativamente deficiente, fraca nutricionalmente e sem grandes custos para o produtor algarvio.

Animais estabulados:
• Os bovinos são vistos como um transformador de subprodutos da agricultura praticada na região;
• Arraçoamento principal seria palha como base da alimentação e produtos do milho, como folha verde, bandeiras, carepa ou camisas de milho;
• Juntamente com estes alimentos juntava-se um pouco de luzerna e todos os desperdícios das hortas.

Animais em trabalho:
Quanto aos animais de trabalho de tracção, no campo, forneciam-se algumas matérias-primas de melhor valor nutritivo, como alfarroba, fava, grão-de-bico.

Na engorda:

Na engorda faz-se a administração de subprodutos da destilação de figo, como base de concentrado alimentar, palha à descrição, sêmeas e farinha de peixe. A engorda duraria entre 90 a 120 dias, consoante a apetência dos animais aos subprodutos.

Segundo Trigo Pereira, cada bovino come 80 a 90 kg/d de trigo destilado, correspondente a 45 kg de figo seco, repondo 700 a 1000g/ peso vivo.

Após observarmos alguns pontos sobre o modo de exploração dos bovinos algarvios em três realidades distintas, veja-mos algumas características desta população de bovinos.

Características da raça

Os bovinos de raça algarvia apresentam uma facilidade de engorda, elevados pesos dos vitelos, preferência dada pelos centros de abate, bom rendimento e valorização da carcaça. São animais médios, de aspecto roliço e compacto. De membros curtos, fortes, de pelos mais escuros nos posteriores, até ao curvilhão e canelas claras. Animais de pelagem ruiva ou flava. Pode-se observar alguns destes aspectos nos modelos abaixo descritos:


Características reprodutivas:

 Fêmeas precoces, fecundas e férteis;
• O 1º cio aparece entre os 10 e os 12 meses de idade, sendo cobertas entre os 15 e os 18 meses;
• Apresentam o 1º parto antes dos 30 meses;
• O touro beneficia a vaca logo no 1º cio desta, após o parto, ao 3º mês de lactação;
• As vacas apresentam uma longevidade reprodutiva de 15 a 16 anos;
• É muito vulgar partos duplos;
• Machos aptos para reprodução aos 10/ 12 meses;
• As fêmeas podem estar gestantes aos 12/ 13 meses.

Características produtivas:

Peso ao nascimento: 30/ 35 kg;
Peso até aos 180 dias:
• 1º mês: 73.5kg;
• 2º mês: 93kg;
• 3º mês: 133.5kg;
• 4º mês: 158kg;
• 5º mês: 189kg;
• 6º mês: 217.5kg.
Nota: Estes dados são as médias de pesos de alguns indivíduos estudados pelo Dr. Trigo Pereira (1959).

Após a recolha e análise destas informações, podemos salientar algumas observações, tais como:

  • A raça Algarvia é muito completa, isto é, nas suas funções de trabalho no campo (função sem interesse nos dias de hoje), na produção de carne de excelente qualidade, apreciada e escolhida em primeiro lugar pelos matadouros e consumidores. Apresenta pesos e rendimentos de carcaça muito satisfatórios;
  • A sua carne é branca, sápida, tenra, entremeada de gordura, muito apreciada para consumo;
  • O seu maneio alimentar é à base de subprodutos da agricultura e das hortas, bem como da destilaria de figo, transformando estes fracos alimentos em carne;
  • Os animais eram muitas vezes transportados, em grande quantidade, de comboio, no fim de engordados para as grandes cidades de Lisboa e do Porto;
  • Quanto à reprodução, são animais muito precoces.

Conclusões

Com a elaboração do presente artigo podemos concluir que ao redor da vaca algarvia houve um enorme trabalho, com recolha de muita informação. É uma raça muito interessante do ponto de vista zootécnico, transformando subprodutos da agricultura em carne.

Seria imprescindível uma rápida recuperação desta raça, já considerada extinta em 2004, iniciando-se um projecto de recuperação em 2005, que referenciou uma população de 43 fêmeas e cerca de 4 machos que foram sujeitos a recolhas de material genético para conservar.

Numa população já considerável para recuperação, bem distinguida geneticamente de indivíduos de outras raças do sul, esta pequena população de 43 indivíduos tem vindo a diminuir drasticamente, colocando em risco a viabilidade e credência de uma possível recuperação, perante tantos obstáculos que a genética e a vontade humana colocam pelo caminho.

Todo este caminho e toda esta qualidade de animais que outrora eram um top nacional, leva a perguntar de novo:
O que é feito dos bovinos de raça algarvia?

Não seriam estes animais capazes de controlar a vegetação das bonitas serras algarvias, transformando-a em carne e embelezando a paisagem?

Não seriam estes animais capazes de afamar de novo os bons bifes algarvios, muito procurados até mesmo em Lisboa e no Porto?

Não seriam estes animais capazes de cativar o elevado número de turistas que invadem o Algarve, com o sabor da sua carne, a beleza ao velos em estado natural, a história cultural que muito escondem na sua pelagem flava?

Não seriam estes animais capazes de diversificar a concentração de turistas nesta região?

Não seriam estes animais capazes de consumir o excedente alimentar das grandes superfícies, da agricultura, das hortas?

Tenho a certeza que, com o esforço de todos, a união e o sentido patriota de cada pessoa, a raça poderá crescer daqui para a frente, com foco, muita recolha de informação zootécnica, muita dinâmica e divulgação, para que o interesse do povo algarvio e português em geral surja em preservar, aumentar e melhorar esta bonita população bovina.

Melhor que uma metodologia é levar as pessoas a pensar, a criticar, a discernir.

Agricultura e Mar Actual

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