Artigo de opinião de Catarina Grilo, Directora de Conservação e Políticas da WWF Portugal
Em tempos de crises económicas e conflitos geopolíticos, é fácil relegar as questões ambientais para segundo plano, como se estas fossem um luxo e não uma necessidade. No entanto, a história mostra-nos que é precisamente em momentos de crise que devemos reforçar o nosso compromisso com a preservação da natureza. A nossa sobrevivência não depende apenas de soluções imediatas, mas da construção de um futuro onde a saúde dos ecossistemas e espécies e o bem-estar das pessoas caminhem lado a lado.
O lobo (Canis lupus) é um exemplo claro desta interligação. Ao longo das últimas décadas, esta espécie foi recuperada com sucesso em várias partes da Europa, demonstrando que a coexistência entre humanos e grandes predadores é possível – experiências bem-sucedidas mostram que medidas como a prevenção de ataques ao gado, a compensação justa aos agricultores e a sensibilização das comunidades podem reduzir significativamente possíveis conflitos. Mais do que nunca, é essencial que cidadãos, cientistas, agricultores e decisores políticos trabalhem juntos para encontrar soluções equilibradas.
Infelizmente, e precisamente sobre o lobo, decisões recentes a nível europeu contrariam esta visão. Tudo começa em setembro de 2023, quando Ursula von der Leyen, em vésperas de eleições europeias e antecipando um crescimento de grupos políticos associados a fortes interesses económicos, anunciou um período de consulta para recolher informações sobre a coabitação entre lobos e pessoas na UE. Daí, e até à recente entrada em vigor da proposta da Comissão Europeia à Convenção de Berna para reduzir o estatuto de conservação do lobo em toda a Europa, assistiu-se a uma instrumentalização tanto da ciência como de instituições da União Europeia para promover a redução da proteção desta espécie.
Desde a própria presidente da Comissão ter conduzido individualmente – e de forma absolutamente inédita – a já referida consulta pública à revelia dos serviços da Comissão, até tentar encontrar “evidências de urgência” para justificar a sua proposta quando a própria Comissão já dispunha de dados cientificamente rigorosos, valeu tudo para conquistar o voto das chamadas zonas rurais. E assim, o medo falou mais alto: apesar de em 18 anos (2002-2020) apenas terem sido registadas 6 investidas de lobos sobre pessoas em toda a UE, a Presidente da CE levou a sua avante. Em breve será possível aos Estados-Membros definir “medidas de gestão” das populações de lobos, leia-se “matar lobos”, mesmo quando não representam perigo para as pessoas e as medidas de prevenção e de compensação por ataques ao gado estão adequadamente implementadas.
A sucessão de decisões que nos levaram até este ponto representam um golpe severo nos esforços de conservação da biodiversidade na Europa, onde a promissora mas ainda incompleta recuperação do lobo representava até agora um dos maiores sucessos de recuperação de uma espécie. Agora, esse progresso está em risco. A reabertura em Espanha da caça ao lobo a norte do Douro ilustra os perigos deste novo paradigma. Argumenta-se, sem base científica, que a redução da proteção ajudará a mitigar conflitos com a atividade agropecuária, e a reduzir, veja-se, o desperdício alimentar (!).
Reduzir a proteção do lobo é um erro estratégico. O equilíbrio ecológico e os serviços ambientais que esta espécie proporciona são inestimáveis. A sua desproteção não resolverá os desafios socioeconómicos da agricultura e das comunidades rurais – pelo contrário, agrava os desequilíbrios ecológicos e coloca em risco décadas de trabalho.
A ciência é clara: proteger o lobo não é uma questão de opinião, mas uma necessidade ecológica. A biodiversidade europeia precisa de mais proteção, não menos. Cabe-nos defender esta causa e exigir que as decisões políticas sejam guiadas pelo conhecimento científico e pelo compromisso com o futuro do planeta, particularmente, reforço, em momentos de crise.
Agricultura e Mar
AGRICULTURA E MAR Revista do mundo rural e da economia do mar
