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Produtores pecuários europeus arrasam Estratégia do Prado ao Prato: “menos gado significa menos fertilizantes naturais” para a agricultura biológica

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A Estratégia do Prado ao Prato quer reduzir a utilização de pesticidas em 50% e reforçar a área de agricultura biológica em 25% até 2030. Deste modo, a Comissão Europeia procura promover um sistema alimentar mais saudável e sustentável, enquadrando-se no Pacto Ecológico Europeu. E garante  que “a transição para um sistema alimentar sustentável terá benefícios para o ambiente, para a saúde e para a sociedade proporcionando ganhos económicos e garantindo a subsistência de todos os sectores intervenientes”.

Pois a European Livestock Voice, um grupo diverso de parceiros da fileira pecuária da União Europeia, de que a portuguesa Confagri — Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas faz parte, garante que a Estratégia do Prado ao Prato nas do “preconceito de que a carne não é sustentável nem para o meio ambiente nem para a nossa saúde”.

E garante que “menos gado significa menos fertilizantes naturais” para a agricultura biológica. O estrume permite que o solo seja fertilizado sem o uso de fertilizantes químicos. Menos gado significa menos fertilizantes naturais, mais produtos químicos e mais desertificação.

Por outro lado, aqueles produtores pecuários dizem que “a carne é sempre o bode expiatório quando se trata de emissões de CO2. Mas, na Europa, a pecuária criada para produzir carne é responsável por produzir 7,2% das emissões de gases de efeito de estufa”, salientando que “um voo de ida e volta de Roma a Bruxelas emite mais CO2 por passageiro do que o consumo moderado de carne durante um ano inteiro para essa mesma pessoa”.

“Os 9 paradoxos de Farm to Fork”

Por isso, estes produtores lançaram ontem, 25 de Marco, o vídeo “Os 9 paradoxos de Farm to Fork” através do qualexplicam que a Estratégia “é altamente ambiciosa, mas o sector pecuário da Europa teme que não leve realmente em consideração as suas tradições agrícolas e os enormes progressos já alcançados”.

Para aqueles produtores, os criadores de gado da União Europeia “são actores comprometidos com a mudança para uma maior sustentabilidade, mas acreditam que a abordagem Farm to Fork se baseia em preconceitos errados”.

E acrescentam que as quintas de gado “não sou hoje como eram antigamente. Evoluíram aprendendo a utilizar evoluções tecnológicas necessitando menos recursos e tornando-se mais eficientes. Mas poucas são as pessoas que estão cientes dessa evolução, pois nas últimas décadas, as quintas de outrora espalhadas por todo o continente europeu diminuíram drasticamente. A geração actual nunca experienciou o mundo agrícola e pecuário de perto e muita vezes tem uma visão idílica da criação de animais. O resultado? Costumamos falar de agricultura e pecuária de uma perspectiva urbana distante da realidade da pecuária e dos seus ciclos naturais”.

“É por isso que a Estratégia do Prado ao Prato apresenta paradoxos”, garantem.

O agriculturaemar.com aqui transcreve os 9 paradoxos apontados pela European Livestock Voice.

Paradoxo nº 1 – Nutrição

A Ciência informa isto claramente, desde a pré-História até aos dias de hoje o consumo de proteína animal favorece o desenvolvimento do cérebro humano, porque do ponto de vista nutricional as proteínas animais são as mais eficientes. Em poucas calorias encontramos todos os nove aminoácidos essenciais, 16 vitaminas e minerais e 10 compostos bioactivos. Por outras palavras, se nós, seres humanos, nos tornámos os seres inteligentes e evoluídos de hoje devemos em grande parte à dieta omnívora e aos aspectos nutritivos dos alimentos de origem animal.

Paradoxo nº 2 – Uso da terra

Muitos pensam que o gado retira terras valiosas da produção vegetal para consumo humano. Contudo, isso não é verdade. Na Europa, a área usada para a agricultura e pastagem permaneceu quase constante nos últimos 60 anos, enquanto a população cresceu em mais de 125 milhões de indivíduos e a esperança média de vida aumentou em cerca de 10 anos, com uma expectativa de vida de quase 80 anos de idade.

Os animais são naturalmente complementares à vida humana, uma vez que 86% da sua dieta é baseada em partes de plantas ricas em celulose como resíduos agrícolas, erva e feno que não são digeríveis pelas pessoas e que são convertidas em proteínas de alto valor biológico.

Paradoxo nº 3 – Ambiente

Onde há produção pecuária há pessoas que investem na protecção da terra, evitando o seu abandono, degradação, instabilidade hidrogeológica e perda da biodiversidade. A carne é sempre o bode expiatório quando se trata de emissões de CO2. Mas, na Europa, a pecuária criada para produzir carne é responsável por produzir 7,2% das emissões de gases de efeito de estufa, que já são mais eficientes hoje do que a média mundial de produção de carne que é de 14,5%.

De onde vêm os 85%-90% restantes? Grande parte do aquecimento global vem do uso de combustíveis fósseis que tiveram um aumento repentino nos últimos 70 anos para produzirem energia na indústria, no sector residencial e nos transportes. Um voo de ida e volta de Roma a Bruxelas emite mais CO2 por passageiro do que o consumo moderado de carne durante um ano inteiro para essa mesma pessoa.

Paradoxo nº 4 – Economia

A Estratégia do Prado ao Prato sugere uma redução progressiva do sector pecuário europeu, o que pode levar à importação de carne de outros países onde a produção tem maior impacto sobre o clima e a poluição global do ar, podendo este aumentar, uma vez que as emissões não conhecem fronteiras e o impacto económico das importações também precisa de ser contabilizado. Além disso, a pecuária está interligada a dezenas de outros sectores. Reduzir este sector também significa colocar outros sectores em crise (lacticínios, carne e ovos, biocombustível, roupa e têxteis, biomédico, cosméticos, fertilizantes naturais, comida para animais).

Paradoxo nº 5 – Bem-estar animal

A legislação europeia sobre o bem-estar-animal é uma das mais avançadas e abrangentes do Mundo. Se parássemos de criar gado na Europa e importássemos carne de outros países ter-nos-íamos de perguntar: o bem-estar animal seria protegido?

Paradoxo nº 6 – Fertilizantes

A Comissão Europeia planeia diminuir o uso de fertilizantes em 20% e aumentar a produção biológica em 25% até 2030. Mas para cultivar legumes biológicos a produção de gado é necessária. O estrume permite que o solo seja fertilizado sem o uso de fertilizantes químicos. Menos gado significa menos fertilizantes naturais, mais produtos químicos e mais desertificação.

Paradoxo nº 7 – Emprego

Em média, cada quinta de gado garante 7 empregos no meio rural. Sem as quintas e com o consequente despovoamento das áreas agrícolas, ocorreriam novas perdas de empregos,

Paradoxo nº 8 – Património culinário e cultural

O objectivo da Estratégia do Prado ao Prato é criar cadeias de abastecimento mais curtas e fortalecer a resiliência dos sistemas alimentares regionais bem como como as Indicações Geográficas. Este objectivo confronta-se com a globalização dos alimentos ultra-processados e sintéticos, feitos sem identidade territorial ou património cultural.

Paradoxo nº 9 – Segurança alimentar

Com a crise do novo coronavírus, a questão da segurança alimentar está mais uma vez nos cabeçalhos da Europa. Estamos todos, subitamente, mais vulneráveis. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), nos próximos 30 anos teremos de alimentar mais 2 mil milhões de pessoas adicionais. Além disso, em 2050, cerca de 70% da população mundial viverá em cidades e áreas urbanas. E uma pequena percentagem da população terá de gerir a produção agrícola.

O que aconteceria se a produção animal e por consequente toda a actividade agrícola relacionada continuasse a diminuir? Teríamos menos comida e surgiria um caos social. O debate está agora focado nos aspectos emocionais. E isso é muito perigoso. Só a Ciência nos pode ajudar a entender como realmente devemos organizar uma produção sustentável em escala global, mas que garanta alimentos para todos.

Agricultura e Mar Actual

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