© Juan Carlos Munoz

Primeira Área Privada para Alimentação de Aves Necrófagas licenciada na zona Centro de Portugal

A Área Privada para Alimentação de Aves Necrófagas (APAAN) aprovada no Sabugal é a primeira na região Centro e “promete um futuro melhor para as aves necrógafas no Grande Vale do Côa”. Com a ajuda da Rewilding Portugal, foi recentemente concedida ao primeiro proprietário uma licença para deixar carcaças de gado no campo.

“Espera-se que este momento marcante para a conservação dos abutres conduza à atribuição de mais licenças, ampliando os benefícios para estes icónicos necrófagos, para os agricultores locais e para a sociedade em geral”, refere uma nota de imprensa da Rewilding Portugal.

No topo de uma colina rochosa da sua quinta de 80 hectares, na parte Sul do Grande Vale do Côa, perto da Serra da Malcata, Albano Alavedra deixa os corpos de duas cabras recentemente mortas. Depois retira-se para assistir ao espectáculo inevitável. Em pouco tempo, um grupo de grifos junta-se no céu. Sozinhos ou aos pares, começam a descer, com as penas primárias das suas enormes asas a arranhar o ar. Em breve, uma pequeno grupo de aves reúne-se no chão poeirento, disputando as carcaças. Com o tempo, não restará nada além de alguns ossos espalhados, revela a mesma nota.

Esta reunião de abutres não é apenas uma exibição cativante de necrófagos, mas um momento marcante para o regresso dos abutres à paisagem local. Após uma espera de cinco anos, e com o apoio contínuo da equipa da Rewilding Portugal, Albano obteve finalmente uma licença do Governo para deixar carcaças de gado no campo gratuitamente, através da constituição legal de uma APAAN. A partir de Janeiro deste ano, em vez de ser obrigado a remover os corpos das cabras mortas da sua quinta — o que leva tempo e dinheiro — pode deixar que os abutres façam o trabalho por ele, acrescenta.

Bom para os abutres

O local de deposição de carcaças de Albano beneficiará não só os grifos, que estão a prosperar no Grande Vale do Côa, mas também os abutres-pretos, que são bem mais raros. A sua exploração caprina, composta por cerca de 300 cabras, situa-se perto de uma colónia destas aves, descoberta pela Rewilding Portugal na Reserva Natural da Malcata, em 2021. Com 18 casais, esta é neste momento a terceira maior colónia de todo o País.

“Os locais de deposição de carcaças são, de facto, melhores para os abutres-pretos do que as típicas estações de alimentação artificial (alimentadouros) criadas por diversas iniciativas de conservação”, explica Pedro Ribeiro, técnico de campo da Rewilding Portugal. “Nessas estações são colocadas muitas carcaças regularmente, o que pode atrair grandes grupos de grifos, que são muito agressivos entre si. Muitas vezes, isso resulta num frenesim alimentar louco, que afasta os abutres pretos. No caso de explorações como a de Albano, que depositarão uma ou duas carcaças por mês apenas, haverá por isso menos grifos e os abutres-pretos estão por isso muito mais dispostos a entrar e a alimentar-se por ali. Já vi grifos e abutres-pretos no seu local de deposição, bem como corvos e milhafres vermelhos e pretos”.

Por outro ,ado, os proprietários de gado portugueses sem licença de deposição de carcaças são legalmente obrigados a pagar pela remoção dos cadáveres dos seus animais mortos. No entanto, na prática, muitos simplesmente deixam-nas no campo, uma vez que os serviços de remoção subsidiados pelo Governo não se estendem normalmente a zonas mais remotas. Nessas zonas, é suposto os agricultores cavarem buracos e enterrarem as carcaças, mas o solo é muitas vezes demasiado rochoso para realizar essa tarefa.

“Como deixar as carcaças na natureza é tecnicamente ilegal sem uma licença, as pessoas deixam-nas onde é difícil encontrá-las”, diz Pedro Ribeiro. “E como são difíceis de encontrar para as pessoas, também são difíceis de encontrar para os abutres – debaixo das árvores numa floresta, por exemplo”.

“Os mesmos locais são usados vezes sem conta, como um aterro sanitário, e assim temos dezenas de ovelhas, vacas e outros animais a apodrecer sem que os abutres os eliminem como poderia estar a ser feito. Isto é mau para o ambiente, porque os javalis, as raposas e os cães comem esses cadáveres, e depois as pessoas deixam iscos envenenados porque não gostam de raposas por exemplo. A legalização destes locais de deposição, que são deliberadamente localizados em sítios onde os abutres os podem encontrar facilmente, é uma medida vantajosa para os agricultores, para os abutres e para a sociedade em geral. E também pode beneficiar o Governo português, que gasta mais de um milhão de euros por mês a subsidiar esta remoção de cadáveres”.

Albano Alavedra é o primeiro proprietário do centro de Portugal a obter uma licença de deposição de carcaças. Até à data, só foram concedidas seis licenças em todo o País. “A obtenção desta primeira licença foi um desafio”, afirma Pedro Ribeiro. “Mas agora que a temos, esperamos que seja uma lufada de ar fresco e que o processo de aprovação de licenças acelere. Gostaria de ver uma redução da burocracia, para que os agricultores de todo o país possam candidatar-se facilmente a licenças sem necessitarem da ajuda de uma ONG. Estou a fazer figas para que tudo se torne mais simples, porque os benefícios da deposição gratuita de carcaças para os abutres e para os agricultores são claros e convincentes”.

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