Porque nos afastámos tanto da natureza – e como podemos voltar?

Artigo de opinião de Catarina Grilo, Directora de Conservação e Políticas da WWF Portugal

Vivemos rodeados de natureza, mesmo quando não damos por isso. Todos os materiais e produtos que observamos à nossa volta são de origem natural, ainda que estejam altamente processados, desde o alcatrão nas estradas à madeira dos fósforos. Cada alimento que colocamos no prato (e até o próprio prato!), a roupa que vestimos, os medicamentos que nos curam, têm origem natural. No entanto, o sistema económico e o estilo de vida urbano tornaram estas conexões invisíveis para a maioria das pessoas.

Num país onde há poucas décadas a vida rural era a norma, a rápida urbanização a partir dos anos 60 levou milhões de portugueses para as cidades, afastando-os física e emocionalmente do mundo natural. A melhoria das condições de vida — escolarização, acesso à saúde, água potável e saneamento básico— é uma conquista inegável, mas a vida moderna passou a ser dominada pelo conforto urbano. Durante décadas, a melhoria das condições de vida foi consequência do abandono das zonas rurais, contribuindo para uma perceção de que a natureza está associada à pobreza e a condições de vida precárias, trabalho duro e poucas oportunidades. Infelizmente esta perceção não é totalmente errada. A grande maioria do território português é rural, mas apenas 32,9% da população vive em zonas rurais, o que se deve à falta de oportunidades de emprego, transporte e saúde – o interior do país não recebeu o mesmo investimento financeiro e político e desenvolvimento que o litoral.

Para aqueles que trabalham diretamente com a natureza – agricultores, pescadores, silvicultores, e muitos operadores turísticos e marítimo-turísticos – essa ligação ainda é palpável e vital. Devemos expandir o nosso conhecimento sobre as relações entre pessoas e natureza, reconhecendo que a sua preservação não é apenas uma questão ambiental, mas também económica e social, essencial para o bem-estar de todos.

Hoje, falamos com naturalidade de alterações climáticas, mas ainda não compreendemos inteiramente a teia invisível que nos liga a cada floresta, a cada rio, a cada solo fértil. É a natureza que nos mantêm vivos, faz parte de nós. É importante voltarmos a compreender de onde vem o que consumimos, e como nos comportar num espaço natural, porque é também o nosso espaço.

E a verdade é que estar na natureza não é tão acessível quanto deveria ser. Para muitas famílias, os custos de viajar para espaços naturais são proibitivos. Culturalmente, ainda impera a ideia de que o “importante” acontece na cidade — que a natureza é um luxo, uma atividade de fim-de-semana para quem pode, ou então um sítio com ervas que picam e bicharada que só incomoda. Será que aceitamos esta ideia sem pensar no que estamos a perder?

Felizmente, também há boas notícias. O crescimento do ecoturismo, a popularização de caminhadas na natureza, acampamentos e modos de vida mais sustentáveis mostram que há uma mudança em curso. Em Portugal, iniciativas de educação ambiental, de valorização do património natural e de reconexão com o território apontam novos caminhos. A natureza começa a voltar ao centro das nossas preocupações — mas precisamos de mais e há razões para acreditar.

Até os imprevistos mostram isso: no apagão de dia 28 de abril, em Portugal e Espanha, milhares de pessoas, privadas por algumas horas de ecrãs e internet, e aliviadas do ruído permanente de carros e aviões, redescobriram o prazer simples de estar ao ar livre, na natureza.

A conservação da natureza nunca poderá ser um luxo ou uma moda passageira. Tem de ser uma prioridade — emocional, prática, política. Não podemos proteger aquilo que desconhecemos ou aquilo que aprendemos a ver como algo distante e irrelevante. Está nas nossas mãos transformar a relação com a natureza, reaproximando-a das nossas vidas quotidianas, das nossas decisões e dos nossos sonhos para o futuro.

Porque, no fundo, proteger a natureza não é voltar atrás. É, finalmente, avançar.

Agricultura e Mar

 
       
   
 

Verifique também

IPMA: Setembro de 2025 foi o sexto mais frio desde 2000

Partilhar              O IPMA — Instituto Português do Mar e da Atmosfera informa que foi publicado o …

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.