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Morango: haverá fileira em Portugal?

Artigo de opinião de Maria da Graça Palha, Investigadora do INIAV — Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária

A fileira do morango é uma fileira competitiva em diversas regiões do mundo, nomeadamente na América do Norte e na Europa, constituindo a cultura uma importante cadeia de produção do ponto de vista tecnológico, económico e social. Em 2019, a área mundial situou-se nos 400 000 ha e a produção atingiu 9 milhões de toneladas.

A disponibilidade de maior número de cultivares e o grau de especialização das técnicas de produção nas diferentes regiões de produção têm contribuído para a enorme expansão da cultura. A curto prazo, prevê-se que o consumo de morango continue a aumentar, face a uma população crescente e à tendência atual da procura de alimentos saudáveis pelos consumidores nos mercados desenvolvidos (EUA e Europa), estimando-se que o mercado atinja o valor de 11,5 milhões de toneladas em 2025.

Em Portugal, a cultura do morango teve o seu apogeu nos anos 80-90 do século passado, quando as cultivares obtidas pela Universidade da Califórnia (UC) substituíram as europeias. A melhor adaptação daquelas cultivares às nossas condições climáticas e a introdução de tecnologias de produção praticadas na Califórnia e à semelhança de Espanha aumentaram a produtividade e consequentemente o rendimento da cultura.

Devido às taxas de consumo crescentes, é percetível a importância do morango para a população portuguesa e europeia, havendo uma excelente oportunidade para responder à crescente procura interna e externa e, adicionalmente, para equilibrar a balança comercial nacional

O crescimento exponencial da fileira dos pequenos frutos, nomeadamente da framboesa, mirtilo e amora, ocorrida na última década não foi acompanhada pela do morango. Por serem culturas muito mais rentáveis houve um crescente interesse de vários produtores e investidores, verificando-se a reconversão de muitas explorações para as culturas de framboesa, amora e mirtilo.

Portugal é, desde os anos 70 do século passado, um consumidor por excelência de morango. A perda de competitividade do setor pela sucessiva diminuição da área de plantação e consequente produção obriga anualmente a grandes importações, maioritariamente da Espanha (90 %), originando um défice acentuado da balança comercial. Os morangos mantêm-se como os frutos mais consumidos entre os pequenos frutos. Em 2019, antes da pandemia, o consumo médio aparente foi de 21 000 toneladas levando a uma importação de 19 650 toneladas (GPP, 2021). As exportações rondam, em média, as 5 000 toneladas.

A cultura realiza-se de norte a sul do país, concentrando-se a maioria da produção no Oeste, Ribatejo, Península de Setúbal, Alentejo Litoral e Algarve. A Beira Litoral constitui, atualmente, a principal região de produção de morango biológico. A cultura continua a ser feita predominantemente no solo, mas a produção em cultura sem solo tem vindo a crescer (em substrato e em hidroponia). A cultura é feita maioritariamente em cultura protegida, utilizando túneis (pequenos ou grandes) e/ou estufas.

Em 2020 a área nacional do morangueiro disparou, passou dos 400 para 800 ha. Nota-se um renovado interesse pela cultura pelos produtores. Esta constatação ficou patente no ‘VI Colóquio Nacional da Produção dos Pequenos Frutos’ realizado em maio do ano passado.

A fileira detém uma série de pontos fortes e de oportunidades que podem reverter esta situação: existência de capacidade produtiva instalada em várias regiões, conhecimento técnico da cultura e existência de regiões favoráveis à produção de morango precoce e fora-de-época, épocas em que o fruto é mais valorizado. Devido às taxas de consumo crescentes, é percetível a importância do morango para a população portuguesa e europeia, havendo uma excelente oportunidade para responder à crescente procura interna e externa e, adicionalmente, para equilibrar a balança comercial nacional.

A cultura encontra-se bem adaptada às condições climáticas de Portugal e tem, assim, no nosso entender um enorme potencial de crescimento para aumentar a área cultivada e a produção de morango, com grandes margens de aumento no mercado de exportação e interno.

Esperamos que no próximo dia 18 de março, durante a realização do Seminário ‘Morango. Haverá fileira em Portugal?’, possamos contribuir para a revitalização do setor com a participação dos diferentes players a analisar e debater a fileira. O evento é organizado pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV, I.P.) em colaboração com a Hortitool Consulting Lda. e o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional – Centro de Competências (COTHN-CC).

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