Montado: Podem as pessoas criar ecossistemas?

Artigo de opinião de Vasco da Silva, Coordenador de Florestas e Biodiversidade da WWF Portugal

O montado é uma paisagem emblemática, característica do Sudoeste da Península Ibérica, que foi sendo moldada ao longo de milhares de anos pela interação entre pessoas e natureza. A partir dos bosques mediterrânicos de sobreiro e azinheira criou-se um sistema agrosilvopastoril, promovido essencialmente por atividades de pastoreio, uso do fogo e desbaste de árvores. Ao mesmo tempo que é um sistema produtivo, que inclui diferentes usos da terra (agrícola, florestal e pecuária), é um sistema seminatural com elevada biodiversidade, servindo de habitat a diversas espécies de plantas e animais, como o icónico lince-ibérico (Lynx pardinus), espécie que apesar dos esforços de melhoria do estado de conservação ainda se encontra “Vulnerável”.

É preciso, por isso, valorizar economicamente as práticas que preservam o montado, ao mesmo tempo que beneficiam a sociedade com os seus produtos e serviços, gestão diretamente dependente de quem está no meio rural, e quem o faz numa perspetiva de sustentabilidade

O montado é, por isso, um exemplo de uso do solo sustentável, em que a grande complexidade ecológica se associa à importância socioeconómica, sustentando importantes atividades como a produção de cortiça (onde Portugal lidera mundialmente), porco de montanheira ou o ecoturismo. Apesar do reconhecido valor, nas últimas décadas é notória a perda de área e vigor dos montados de sobro e azinho, declínio atribuído a múltiplos fatores como secas cada vez mais extremas, ocorrência de pragas e doenças, práticas culturais nefastas como cultivos e conversão em área agrícola (olival intensivo).

A preservação do montado como mosaico multifuncional de paisagem que presta variados serviços de produção, de conservação e de regulação – sequestro de carbono, armazenamento de água, conservação do solo – depende de práticas de gestão coadunáveis com a manutenção das funções vitais do ecossistema e da sua contínua regeneração. A ausência de políticas específicas de apoio à recuperação e melhoria do estado de conservação dos montados, bem como de incentivos à gestão dos vários níveis do sistema agrosilvopastoril (arbóreo, arbustivo e herbáceo), contribui para a acentuada degradação do montado. No mesmo espaço ocorrem estruturas vegetais verticalmente muito distintas em que a componente arbórea de sobreiros e azinheiras é dominante e se sobrepõe à pastagem, de culturas forrageira ou pousio, intercalada com matos, um bosquete ou galeria ripícola, áreas de alto valor para conservação.

É preciso, por isso, valorizar economicamente as práticas que preservam o montado, ao mesmo tempo que beneficiam a sociedade com os seus produtos e serviços, gestão diretamente dependente de quem está no meio rural, e quem o faz numa perspetiva de sustentabilidade.

Foi com esta intenção que surgiu o Green Heart of Cork (GHoC), projeto criado originalmente pela WWF e pelo Centro de Ecologia Aplicada “Prof. Baeta Neves” (do Instituto Superior de Agronomia) há 13 anos para valorizar o montado de sobro, e que é mais do que um pagamento por um serviço ambiental. É um reconhecimento de quem trabalha para preservar o montado e o mantém de geração para geração. Desde 2011 já foram feitos 45 pagamentos, num total de 79 mil euros. Este montante tem permitido aos proprietários de áreas de montado com certificação FSC mitigar diretamente o custo da certificação. Mas o impacto real é bem maior: está nas práticas replicadas, nas mentalidades que mudam e nas paisagens que resistem.

Agora reformulado como GHoC+, o projeto será alargado a todo o território continental e com novas categorias, e em 2026 irá estar aberto a receber candidaturas de proprietários, coletivos e individuais. Promovido pela WWF Portugal e com o apoio do FSC® Portugal, este novo mecanismo pretende não só revigorar o montado, como também as florestas de sobro e azinho e os serviços de ecossistemas que prestam. Também distingue ações e pessoas reais, que implementam práticas responsáveis de gestão florestal, numa sociedade cada vez mais apressada perante a paciência que a terra exige.

Voltamos à pergunta: podem as pessoas criar ecossistemas? A resposta é sim. O montado é a prova de que a sua sobrevivência depende das pessoas, e a relação montado-proprietário pode criar paisagens ricas e resilientes.

Agricultura e Mar

 
       
   
 

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