Invasão silenciosa: as plantas proibidas são as mais apetecidas

Artigo de opinião de Vasco da Silva, Coordenador de Florestas e Biodiversidade da WWF Portugal

Algumas espécies de plantas estão a escapar-se silenciosamente dos jardins para os campos, florestas e ribeiras, causando impactos significativos nos ecossistemas: Pennisetum villosum e Pennisetum setaceum, duas gramíneas herbáceas introduzidas em Portugal pela sua função ornamental. Mostram-se como pequenos tufos elegantes, com plumas esvoaçantes hábeis a dispersar as suas sementes e, apesar de proibidas, continuam a ser plantadas pela sua estética apelativa. Estas plantas exóticas têm uma grande capacidade de adaptação e de se espalhar na natureza, tornando-se espécies invasoras que ameaçam a nossa biodiversidade.

Segundo a plataforma IPBES as plantas invasoras são atualmente uma das maiores ameaças à biodiversidade e aos serviços dos ecossistemas. Ao competirem com as espécies nativas, acabam frequentemente por substituí-las e impedir a coexistência de outra vegetação. Alteram o ciclo biogeoquímico dos solos, afetam recursos hídricos e degradam habitats. O impacto vai muito além da flora: afetam animais, fungos e bactérias que interagem com as plantas, desregulando o funcionamento dos ecossistemas. A sua expansão tem também consequências negativas na produção alimentar e na qualidade da água. Invadem terrenos agrícolas, cobrem espelhos de água de rios, ameaçando o bem-estar ambiental e com impactos económicos elevados. Em Portugal, a plataforma invasoras.pt é quem monitoriza todas estas plantas e seus impactes, promovendo ações de informação e mapeamento da sua distribuição.

Vindos de climas quentes e secos, os Pennisetum adaptaram-se com facilidade ao nosso território, particularmente nas regiões de Lisboa e Algarve. São resistentes, crescem rapidamente, produzem muitas sementes e ameaçam prejudicar a economia local, pois os custos de gestão e controlo são avultados. Atualmente a sua disseminação em passeios e vias não passa despercebida, mas o que não se sabe é que também podem afetar a saúde das pessoas, causando alergias e irritação da pele.

Apesar de estas duas espécies integrarem desde 2019 a Lista Lista Nacional de Espécies Invasoras, e o Pennisetum setaceum estar desde 2014 na lista que suscita preocupação da UE, o seu cultivo e introdução continua incólume.

Felizmente, alguns municípios começam a reconhecer a gravidade da situação e a tomar medidas revertendo a introdução destas espécies nos seus canteiros e jardins. Por exemplo, Cascais e Loulé participaram num projeto de sensibilização e controlo destas plantas invasoras financiado pelo Fundo Ambiental, demonstrando um compromisso com a não introdução destas espécies. Que sirva de inspiração para que outras entidades públicas e privadas sigam o mesmo caminho.

É necessário prevenir os danos causados e dar espaço à flora autóctone, que está adaptada ao nosso solo, ao nosso clima, à nossa paisagem. A todos os projetistas, viveiristas e gestores de espaços verdes, públicos e privados: não comprar, vender nem usar em jardins é fundamental. É uma tarefa complexa, mas não impossível, e todos podemos ajudar – basta meter as mãos na terra e, literalmente, arrancar pela raiz.

Agricultura e Mar

 
       
   
 

Verifique também

IPMA e Ordem dos Biólogos assinam protocolo para reforçar literacia do mar e atmosfera nas escolas

Partilhar              O O IPMA — Instituto Português do Mar e da Atmosfera e a Ordem dos …

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.