Apesar da Barragem do Caia, no concelho de Elvas, ter atingido recentemente os 99% da sua capacidade, a operação de descarga está a ser realizada apenas por via de superfície. A descarga de fundo, muitas vezes mencionada como alternativa para aliviar o volume da albufeira e promover a limpeza do fundo, continua tecnicamente inviável.
Em declarações à nossa redação, Luís Rodrigues, gestor da Associação de Beneficiários do Caia, explicou os motivos que impedem esta operação. Segundo o responsável, a utilização da descarga de fundo, também conhecida como válvula de jato oco, colocaria em risco infra-estruturas essenciais a jusante da barragem.
“A descarga de fundo libertaria cerca de 60 metros cúbicos por segundo. Esse caudal inundaria duas pontes fundamentais para a circulação local, utilizadas diariamente por residentes e agricultores. Não podemos comprometer a mobilidade de quem depende dessas ligações,” afirmou.
Outro fator impeditivo é o estado do leito do Rio Caia, fortemente assoreado. De acordo com o gestor, o excesso de sedimentos e a falta de capacidade de condução do rio fariam com que uma parte significativa da água extravasasse o canal natural, provocando prejuízos nas zonas agrícolas adjacentes.
“Dois terços da água libertada pela descarga de fundo sairia fora do leito do rio, o que afectaria culturas e terrenos próximos. Nessas condições, a operação não é apenas ineficaz — é perigosa,” acrescentou.
No que diz respeito à qualidade da água e à eventual função de limpeza da descarga de fundo, Luís Rodrigues esclareceu que o seu efeito seria limitado.
“A ideia de que a descarga de fundo limparia a barragem não corresponde à realidade. Essa libertação só afecta uma área de cerca de cem metros a montante da válvula, sem impacto na qualidade geral da água armazenada, que está garantida para consumo público.”
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) encontra-se, segundo o gestor, a preparar um projecto de desassoreamento do Rio Caia, desde a barragem até à foz no Guadiana. A concretização dessa intervenção poderá, no futuro, permitir uma utilização segura e eficaz da descarga de fundo.
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