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Combate aos incêndios e à seca: Quercus propõe aproveitamento dos resíduos florestais e agrícolas e rotação de culturas

“As políticas públicas de prevenção dos fogos rurais assentam na visão distorcida de que a floresta tem muito combustível, obrigando a limpezas incomportáveis e ao uso do fogo (fogo controlado, queima de sobrantes e queimadas), a que acrescem as más práticas agrícolas, como mobilizações de solo, uso de herbicidas (com destaque para o glifosato) e igualmente uso de fogo, o que contribui para o agravamento do problema. Está na altura de aproveitar os nossos recursos em vez de os queimar”.

Este é o entendimento da direcção da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza que, em comunicado, apresenta “3 propostas eficazes e exequíveis para a prevenção dos incêndios e o combate à seca”. São elas: o aproveitamento dos matos e resíduos florestais e agrícolas; adubos verdes e rotação de culturas integrando leguminosas proteaginosas; e imitar a natureza na produção pecuária.

No actual cenário de alterações climáticas, com todo o País em cenário de seca e vulnerável a mais fogos incontroláveis, como o da Serra da Estrela, “é urgente repensar as práticas instaladas. Se interligarmos a agricultura e o pastoreio com a floresta podemos aumentar o sequestro de carbono no solo, diminuir a dependência dos adubos químicos importados, nomeadamente da Rússia, e melhorar o rendimento dos agricultores e produtores pecuários e florestais”, considera a Quercus.

Ter solos ricos em carbono “é essencial para mitigar as alterações climáticas e garantir as necessidades básicas da humanidade: produção de alimentos, armazenamento de água nas reservas subterrâneas e superficiais de água potável, prevenção das cheias”, acrescenta o mesmo comunicado.

E garante que 2em Portugal 63% do solo está em vias de desertificação. O teor em matéria orgânica na maior parte do solo é de apenas 1% (que equivale a 30 t de carbono por hectare), que abrange o território a Sul do Tejo e o interior a Norte do Tejo, que é insuficiente para a maioria das culturas agrícolas, as quais necessitam no mínimo de 3% para um bom crescimento pouco dependente da adubação”.

“Em todo o solo agrícola no nosso País, agravou-se a perda de matéria orgânica/carbono nas últimas décadas, perda estimada em dois pontos percentuais em média (60 t de carbono por hectare). A partir do século XX, em consequência da campanha do trigo de Salazar, com o cultivo em solos sem grande aptidão para os cereais, e mais tarde devido à Política Agrícola Comum (PAC) quando Portugal aderiu à CEE, com a substituição dos estrumes pelos adubos químicos e instalação das monoculturas sem rotação e sem leguminosas e a especialização dos agricultores”, refere a Quercus.

Para a associação, “esta situação ainda se mantém e tem-se agravado ainda mais neste século XXI com a instalação de olivais e amendoais superintensivos, com grandes movimentações de terra (tipo aterros de obras) com linhas de plantação ao alto, com grandes camalhões de terra nessas linhas, uso de herbicidas e sem revestimento do solo, havendo cada vez mais casos de perda parcial ou total de solo por erosão hídrica”.

Diz a direcção da Quercus que “há soluções eficazes e exequíveis para aumentar o sequestro de carbono no solo”, as quais a Revista Agricultura e Mar aqui transcreve.

1- Aproveitamento dos matos e resíduos florestais e agrícolas

A floresta tem muito carbono (C) e algum azoto (N), já os matos são ricos quer em carbono quer em azoto, como é o caso das giestas e tojos, nutrientes que fazem falta ao solo, fundamentais para as culturas agrícolas e para promover o crescimento das plantas em geral. A prática tradicional de corte e recolha do mato nas áreas florestais é uma forma eficiente de transferir estes nutrientes para o solo.

Com os incêndios e a queima de matos e qualquer resíduo orgânico estamos a deixar arder muitas toneladas de carbono, e o mesmo tempo arde também o azoto. A produção de estilha a partir das ramagens frescas de espécies florestais, incluindo o eucalipto, também permite a sua utilização agrícola em cobertura do solo (mulching), regenerando-o e sequestrando o carbono.

2- Adubos verdes e rotação de culturas integrando leguminosas proteaginosas

Os custos dos adubos químicos aumentaram extraordinariamente nos últimos meses, na ordem dos 120 %, devido sobretudo ao aumento de custo da energia, ao custo das emissões de carbono no fabrico e à guerra na Ucrânia. Considerando a aplicação de 150 Kg/ha de azoto (N), o custo por hectare dos adubos químicos azotados é já superior a 300 euros/ha. Mas com boas práticas agrícolas podemos até evitar a totalidade desses adubos químicos, como aliás já fazem os agricultores que praticam agricultura biológica.

Complementar o aproveitamento dos matos e resíduos orgânicos com a adubação verde com plantas leguminosas eficientes na fixação biológica do azoto em simbiose com a bactéria do solo “rizóbio” (fava, tremoço, tremocilha, trevos, luzernas) e com rotações de culturas que incluam sempre leguminosas proteaginosas (grão-de-bico, feijão-frade, fava, ervilha, lentilha, ou até soja se houver água para regar), pode substituir a maior parte do adubo azotado de síntese química.

A redução em 20% dos adubos químicos e de 50% das perdas dos nutrientes aplicados nesses adubos, até 2030, é um dos objectivos da “Estratégia do Prado ao Prato” da Comissão Europeia, com o objectivo de diminuir as emissões poluentes provocadas pelo fabrico, transporte e aplicação dos adubos (em especial os azotados), bem como a poluição das águas subterrâneas com nitratos (só em Portugal temos 9 zonas vulneráveis com águas com excesso de nitratos/azoto e por isso impróprias para consumo humano).

3- Maneio holístico – imitar a natureza na produção pecuária

O actual modelo de produção pecuária está dependente da importação de alimentos para animais, revelando cada vez mais a sua inviabilidade ambiental e económica. A produção nacional de milho supre apenas cerca de 20% da procura, e a soja é 100% importada, com fortes impactes ambientais nos países de origem, dado o cultivo de variedades OGM e a aplicação do herbicida glifosato, que deixa resíduos tóxicos no solo, na água e no alimento, bem como a destruição da floresta amazónica para aumentar as áreas agrícolas.

O maneio holístico é um exemplo de uma abordagem possível para a regeneração das paisagens degradadas, em particular após um incêndio, contribuindo para a rentabilidade da exploração. Vários estudos demonstram que até produtores mais conservadores, ao aderirem a este tipo de abordagem alcançaram resultados superiores na melhoria da biodiversidade do ecossistema, produtividade, fixação de carbono e fertilidade do solo, capacidade de retenção de água, redução dos custos em rações e outros alimentos para animais.

Este método consiste em utilizar vários parques, subdividindo a área total destinada aos animais em pastoreio, e realizar curtos períodos de pastoreio nesses parques, o que permite longos períodos de recuperação das pastagens. Assim sendo, mimetiza mediante planeamento e maneio, os processos ancestrais que faziam as grandes manadas de herbívoros sobre os territórios.

Acrescenta o mesmo comunicado que o carbono é o principal nutriente do solo, pois alimenta milhões de organismos que nele habitam (cerca de 7.000 milhões de microrganismos por cada 100 gramas de solo fértil), organismos que são muito importantes para a produtividade da agricultura.

O carbono armazenado no solo na forma de húmus é também a melhor forma de o sequestrar sem que seja consumido pelos incêndios e é uma quantidade da ordem de 30 toneladas por cada hectare de terra por cada 1% (um ponto percentual) de matéria orgânica acumulada no solo na forma de húmus (em média há 58% de carbono no húmus do solo), considerando uma profundidade média de 50 cm com esse teor de MO (matéria orgânica).

Com o aumento da matéria orgânica/carbono no solo agrícola (incluindo o silvo-pastoril / agro-florestal) em 1% até 2030, atingiremos um sequestro de carbono acima de 100 milhões de toneladas de carbono orgânico em Portugal.

Agricultura e Mar

 
       
   
 

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