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Agricultura sintrópica: o básico que deve saber

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Artigo de opinião de Rosa Moreira, Eng.ª Agrónoma, promotora do site A Cientista Agrícola

Já me pediram por diversas vezes para falar sobre agricultura sintrópica e como mais vale tarde do que nunca, cá estou eu com um artigo sobre este tema. Este artigo terá como objectivos principais abordar a definição de agricultura sintrópica e os princípios que a regem para que possa entender o básico sobre esta temática. Como este é um artigo introdutório ao tema, é expectável que mais tarde, continue com esta temática em artigos mais aprofundados. Quer saber o que é a agricultura sintrópica e como aplicá-la no seu ecossistema agrícola? Então continue a ler este artigo.

O pai da Agricultura Sintrópica: Ernst Götsch

É impossível falar de agricultura sintrópica sem falar de Ernst Götsch: agricultor, investigador e conhecido por muitos com o pai da agricultura sintrópica.

O trabalho do suíço levou a que muitas terras degradadas ou em degradação “sofressem” um processo de conversão para sistemas agro-silvicolas onde a a diversidade e produtividade são evidentes.

Resumidamente, Ernst Götsch desenvolveu uma nova forma de recuperar com relativa rapidez solos pouco férteis, tendo como base os modelos/padrões que já existiam na natureza. Neste modelo, as espécies de plantas e culturas eram seleccionadas com cuidado e rigor, usando por exemplo práticas como a consociação de culturas.

O seu trabalho foi tão incrível que em poucos anos, conseguiu converter uma área muito considerável brasileira(1200 acres) numa floresta tropical, onde eram produzidas culturas diversas. Como pioneiro, levou a que muitos dos seus alunos e até algumas empresas lhe seguissem os passos e implementassem técnicas semelhantes, de forma a estabelecer uma combinação entre a parte ecológica e a comercial.

Actualmente com 73 anos (a informação que consta na Wikipédia), confesso que é uma das minhas inspirações. Sei que fala bem português e portanto, mantenho a esperança de um dia o entrevistar. Alguém lhe pode passar a mensagem? 😉

Resultado de imagem para Ernst Götsch
Ernst Götsch- Fonte da imagem: https://agendagotsch.com/pt/ernst-gotsch/

Mas afinal, em que consiste a agricultura sintrópica?

O conceito de agricultura sintrópica é usado para designar um sistema de cultivo agroflorestal baseado na sintropia. A sintropia contrariamente à entropia, caracteriza-se pelo equilíbrio, preservação energética e ambiental, organização, equilibro e integração.

Este tipo de agricultura inspira-se bastante na funcionamento e dinâmica dos ecossistemas “virgens”- ou seja, ecossistemas que não “conheceram a intervenção do homem”.

A agricultura sintrópica defende a melhoria das condições de vida/ cultivo das plantas em detrimento da sua alteração genética.

A agricultura sintrópica é mais do que uma agricultura sustentável. Neste modelo agrícola, tal como referi no início deste artigo, as culturas são cultivadas em consociação umas com as outras (dispondo-as em linhas paralelas), de forma a aproveitar as diferentes características desta associação e do terreno. Neste tipo de agricultura, é também privilegiado a manutenção e reintrodução de espécies nativas. Para quem não sabe, as espécies nativas caracterizam-se por serem espécies originárias de determinada zona. Se pensarmos nas espécies nativas de Portugal, ocorrem-me logo exemplos como: amieiro, loureiro, castanheiro, medronheiro, oliveira, etc.

O que acham para já deste modo de produção agroflorestal? A mim, parece-me óptimo.

A ideia geral defendida na agricultura sintrópica é acelerar o processo de sucessão natural, utilizando práticas como exemplo o corte e monda de plantas nativas pioneiras quando estas tenham atingido a maturação (ex: gramíneas, trepadeiras, plantas herbáceas), e também utilizando a poda de árvores e arbustos. Nesta última prática, os resíduos resultantes desta operação são distribuídos/espalhados pelo solo como mulching (promovendo uma maior disponibilidade dos nutrientes para o solo e plantas).

Este tipo de resíduos que não pode ser comercializado volta a ser incorporado no solo, adubando-o naturalmente. É muito importante por isso que se saiba executar a poda correctamente para permitir que a vegetação se desenvolva adequadamente.

No que diz respeito ao uso de produtos fitossanitários como insecticidas e herbicidas, a sua utilização é proibida. O mesmo acontece com o uso de fertilizantes químicos e até orgânicos, com excepção dos fertilizantes que tem origem na própria área cultivada.

No que diz respeito aos insectos e até à presença de organismos vivos, também existem boas notícias (pelo menos para os visados :p ). Estes não são vistos como inimigos da cultura mas sim, como auxiliares a sinalizar possíveis deficiências do ecossistema produtivo. Por essa razão, estes seres vivos são uma ajuda muito importante para ajudar o agricultor a entender quais são os problemas, falhas ou necessidades do(s) cultivo(s) instalado(s).

Restos da poda e de culturas.

Quais as principais vantagens da agricultura sintrópica?

Tal como já está a começar a entender, a agricultura sintrópica tem vantagens inerentes. Um das principais é que permite recuperar os solos abandonados e/ou degradados, relativamente rápido, tornando o sistema de cultivo mais produtivo.

Se tivermos como comparação mais agricultura mais intensiva (ex: monoculturas), a degradação e o empobrecimentos do solo vão sendo evidentes ao longo do seu ciclo produtivo (desde o cultivo até à colheita). Na agricultura sintrópica acontece precisamente o contrário pois, à medida que o ciclo da cultura avança, verifica-se um enriquecimento do solo pois os resíduos que sobram das colheitas são adicionados novamente ao solo. Nada se perde, portanto.

Outras vantagens inerentes da agricultura sintrópica são: (1) o aumento da biodiversidade, (2) melhoria da estrutura do solo, (3) aumento da retenção de nutrientes no solo, (4) aumento da humidade relativa, (5) favorecimento do microclima, entre outras. Além disso, o investimento neste tipo de modelos produtivos é baixo, a necessidade de irrigação é reduzida e não tem custos associados à compra de produtos fitossanitários ou fertilizantes. Os produtos agrícolas e florestais obtidos no modelo sintrópico são também 100% orgânicos o que é uma enorme vantagem.

Princípios da agricultura sintrópica

Gotsch disse em 1995: “Os primeiros critérios para o planejamento e a realização de todas as nossas futuras intervenções, as nossas actividades, enfim, deverão ser o “aumento da vida”,  particularmente da fotossíntese, e o “favorecimento dos processos sucessionais”.
Concretamente, isto significa que eu, como agricultor, só posso fazer um trabalho, uma intervenção na minha plantação quando eu souber que o saldo ou o resultado da actividade planejada será um balanço energético positivo, com aumento da vida e favorecimento dos processos de sucessão.

Um dos principais princípios é o de maximizar o processo fotossintético.

Segundo a sintropia, quanto mais intensa e maior for a fotossíntese, mais vigoroso o sistema. Mas como maximizar o processo fotossintético? Reduzindo os espaços vazios entre as culturas que acabam por não ser ocupados. Dessa forma, diminui também a manutenção necessária para controlar plantas infestantes, por exemplo.

Para maximizar a fotossíntese na agricultura sintrópica pode por exemplo aumentar a densidade de plantação e “abusar” de arranjos estratificados ou com outro tipo de dinâmicas para optimizar o espaço disponível.

Um outro princípio importante da agricultura sintrópica é o princípio das relações inter e intra específicas.

Ainda sobre este principio, Gotsch disse em 1997: “O nascimento de cada ser vivo, a sua força de crescer, de frutificar, de criar o próximo a seguir, de completar o processo de amadurecimento tendo no final a morte, ou melhor dizendo, a transformação em outras formas de vida – tudo isso faz parte do metabolismo do macro-organismo” .

Isto quer dizer que em agricultura sintrópica, a coexistência de um grande número de espécies num determinado espaço sugere que haverá maior competição pelos recursos disponíveis, mas que não será uma desvantagem, muito pelo contrário. Os diferenciais competitivos
conduzirão os seres vivos à adaptação e à sua diferenciação o que levará a que seja definida a dominância do ecossistema.

Dado que não quero que este artigo se torne demasiado extenso, vou deixar-vos aqui um link de um documento onde fala mais detalhadamente sobre os princípios que regem a agricultura sintrópica para quem tiver curiosidade em saber mais.

Mas a agricultura sintrópica são só vantagens?

Não, existem algumas desvantagens. Um delas é que as “recompensas integrais” deste modo de produção só aparecem mais tarde, sendo necessário ser paciente.

Por outro lado, quem não entende o que é a agricultura sintrópica pode considerar que, e visitando um lugar onde a mesma se pratique, que a área cultivada tenha um aspecto desorganizado (devido à utilização do máximo de área disponível).

Por outro lado, para quem quer aprender mais sobre a sintropia pode ficar um pouco desanimado pois esta aprendizagem exige tempo, energia, prática, paciência e muita vontade de aprender. Outras vantagens haverão, mas destaco estas três.

Agora que já sabe em que consiste a agricultura sintrópica…diga-me: quais acha que são as principais vantagens e desvantagens deste tipo de agricultura?

Até ao próximo artigo 🙂

Agricultura e Mar Actual

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