Artigo de opinião de Vasco da Silva, Coordenador de Florestas e Biodiversidade da WWF Portugal
Os incêndios sempre foram, e serão, uma realidade no nosso país. O fogo faz parte da ecologia da paisagem mediterrânica e ao longo dos tempos foi gerido: na abertura de clareiras e espaçamento entre árvores criando agroflorestas, no renovo dos pastos para o gado, ao mesmo tempo que a biodiversidade e habitats naturais se mantinham devido a estratégias de adaptação que desenvolveram. Mas, apesar de o número de ignições vir a diminuir, os incêndios são cada vez mais intensos e mais difíceis de controlar, pois as áreas do território que antes eram geridas e mantidas sem acumulação de vegetação, são agora alvo de impactos devastadores pela elevada carga de combustível. A floresta de produção e de conservação está cada vez mais vulnerável, e resulta de um interior do país despovoado, com zonas completamente ao abandono, sem gestão por parte de ninguém. Se juntarmos a isto as ondas de calor, eventos climáticos caracterizados por temperaturas extremamente altas, o resultado é o que se vê todos os anos.
A mudança passa pela aposta na prevenção. A paisagem portuguesa precisa de ser alvo de transformações profundas no uso e ocupação do solo para reduzir o perigo de incêndio e tornar-se mais resiliente a eventos futuros. O que apontamos ser uma solução deverá ser a prioridade do Governo, o de agora e o das legislaturas que se seguirão, em conjunto com, a administração central e as autarquias, as empresas e as associações locais, as universidades e os proprietários de terrenos, pastores e agricultores, pois todos têm o seu papel a desempenhar na resolução do problema.
A recente Agenda Comum para a Prevenção de Incêndios Florestais, lançada pela WWF Portugal, propõe uma direção clara: criar uma nova paisagem, com mosaicos agroflorestais sustentáveis e produtivos, mais resilientes à propagação descontrolado do fogo. Esta transformação passa, por exemplo, por incentivar a presença da população nos territórios rurais para que possam participar ativamente na sua gestão, ao mesmo tempo que se assegura a coesão nas políticas de agricultura e florestas, no sentido de promover sistemas agrosilvopastoris e modelos de gestão diversificados, que incluam pastoreio e floresta. Só reconhecendo e valorizando o papel destas atividades para a rentabilidade das zonas rurais e para a redução e prevenção de incêndios, se inicia verdadeiramente a mudança.
Há muito a fazer — nas políticas, nos incentivos económicos, nos modelos de produção, na forma como se aplica o conhecimento existente e se decide com base na ciência. A solução é ter uma estratégia para que a gestão do território possa ser pensada a longo prazo, com a colaboração entre todos os setores – Governo, empresas, universidades, comunidades – para que as medidas sejam aceites e implementadas por quem se fixa e produz localmente. Temos, acima de tudo, de pensar e estar mais presentes nestes territórios. Porque a ausência é terreno fértil para o fogo.
Os grandes incêndios não são inevitáveis. A floresta não se salva sozinha e o combate começa antes de a sirene tocar. Começa na prevenção, na forma como planeamos e gerimos a terra, e apoiamos quem nela vive. A floresta é de todos – e a responsabilidade também.
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AGRICULTURA E MAR Revista do mundo rural e da economia do mar
