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Presidente do Vila Galé: “Começa a fazer falta uma grande central de frio no Alentejo”

Entrevista a Jorge Rebelo de Almeida, presidente do Grupo Vila Galé

A Agricultura e Mar Actual foi a Beja visitar o Hotel Vila Galé Clube de Campo e entrevistou o presidente do Grupo hoteleiro, que também é um produtor agrícola de referência, na fruta e nos vinhos e azeites com a marca Santa Vitória.

Jorge Rebelo de Almeida garante que já há produção de fruta suficiente para a criação de uma grande central de frio no Alentejo. Tudo graças ao Alqueva, que modificou a paisagem alentejana com as novas culturas de regadio.

E queixa-se da burocracia e da dificuldade em avançar com a sua expansão de olival. Por outro lado, acredita que mais tarde ou mais cedo vão ser autorizadas as plantações de novas vinhas. Mas prepara-se para investir até 8 milhões de euros na construção de um lagar.

A Vila Galé é o segundo maior grupo hoteleiro português, está entre as 200 maiores empresas hoteleiras do mundo e é composto por diversas sociedades, das quais se destaca a Vila Galé – Sociedade de Empreendimentos Turísticos que se dedica à exploração e gestão de todas as unidades hoteleiras do grupo, bem como à realização de projectos e construção de novos empreendimentos turísticos.

Com quase 3 décadas de existência, a rede Vila Galé conta já com vinte sete unidades hoteleiras sendo que vinte estão espalhadas de Norte a Sul de Portugal, e 7 no Brasil, todas com uma localização estratégica e privilegiada o que se traduz num total de 6.476 quartos e 13.068 camas, e 2.500 funcionários.

jorge-rebelo-de-almeida-5Como nasceu a ideia de criar o Vila Galé Clube de Campo?
Começou em 1998 com a compra de duas herdades, no concelho de Beja, a Faleira Grande e a Faleira. E na altura o que andava há muito tempo à procura era de uma propriedade que estivesse encostada a uma barragem. A ideia inicial era fazer um projecto de vinho e integrar um hotel no Alentejo. A proximidade da água era sempre um elemento agradável para os meses de época alta. O Alentejo é muito bonito mas tem aqui muitos dias de 40 ou 42 graus.

Depois, foi uma atribulação completa para aprovar o projecto. Como estávamos a pensar ter uma ganadaria brava e uma coudelaria de cavalos Lusitanos, precisávamos de fazer um picadeiro tentadeiro. O primeiro calvário em que entrámos foi esperar que as entidades aprovassem aquilo. A reserva agrícola dizia que podia aprovar mas tínhamos de lhe chamar curral. Enfim, foi imenso tempo para conseguirmos desbloquear aquilo. Uma aberração total, pois se tínhamos uma coudelaria, se tínhamos uma ganadaria tínhamos mesmo de ter um picadeiro tentadeiro para poder trabalhar. Era até uma infra-estrutura de trabalho. Mas este País era, é e será complicado, porque não vejo já jeito de conseguimos ter alguma lógica e uma racionalização das coisas.

Eu estava já com a ideia de fazer o hotel aqui no Alentejo. Nova complicação, dificuldades por todo o lado. Diga-se de passagem que a Câmara Municipal aqui de Beja não foi a entidade mais complicada. Era a CCDR, a reserva agrícola.

“Hoje a barragem está feita, nós que não somos agricultores já fizemos mais, já estamos num segmento em que estamos acima de muitos agricultores deste País, alguns com pergaminhos.”

Sempre a burocracia.
Deixe-me dizer isto, que está aqui atravessado. O Estado, o País, todos nós fizemos um investimento brutal a fazer o Alqueva. Vinha servir para desenvolver a actividade agrícola no Alentejo, porque efectivamente fazer culturas agrícolas sem água é um negócio sem grande viabilidade, sem futuro. Portanto a aposta era o regadio. Hoje a barragem está feita, nós que não somos agricultores já fizemos mais, já estamos num segmento em que estamos acima de muitos agricultores deste País, alguns com pergaminhos, porque a brincar a brincar, depois termos feito o hotel fizemos a adega, plantámos vinha – que já vai hoje em 130 hectares de vinha e temos previsão de fazer mais um pouco, para fazermos umas experiências enológicas –, fizemos 170 hectares de olival, cerca de 100 hectares de fruta, e temos uma coisa que não era muito provável aqui no Alentejo, que é a pêra Rocha, que é mais do Oeste.

vg-clube-de-campo_actividades_charrete_1Para termos tudo isto a funcionar, no ano passado fizemos um investimento brutal para ir captar água do Roxo. Ao longo dos anos investimos aqui muito dinheiro. Fomos buscar água para beber e para serviço do hotel. Fomos buscar água a Santa Vitória, fomos nós que pagámos essa conduta e ainda são uns quilómetros bons.

“Depois termos feito o hotel fizemos a adega, plantámos vinha – que já vai hoje em 130 hectares –, fizemos 170 hectares de olival, cerca de 100 hectares de fruta, e temos uma coisa que não era muito provável aqui no Alentejo, que é a pêra Rocha.”

Sempre à procura de água.
Sim. Eu acho mesmo que o Alentejo o que precisa hoje é de dar um salto, de complementar esta actividade agrícola com a agro-indústria, para ser viável. Tem de haver um desenvolvimento. Veja, hoje está a aparecer fruta com força no Alentejo. O que vai fazer falta? Que apareçam algumas centrais de frio, grandes, que apareça aqui uma grande central de preparação e embalagem de fruta, quer para exportação quer para o mercado interno.

Já faz sentido uma central dessas?
Sim, começa a fazer falta uma grande central de frio no Alentejo. Por exemplo, o nosso amigo António Silvestre, um dos homens que fez um trabalho muito importante para o Alentejo, que foi o Vale da Rosa, com as uvas sem grainha. Uma experiência pioneira. Hoje há aqui muitos mais produtores a aparecer com fruta. Está também agora a iniciar-se uma onda nas amendoeiras. E a entrada na agro-indústria terá de ser também contagiante. Nós já entrámos nessa tendência. Temos aqui a adega, já com capacidade para 1 milhão de quilos de uva, e a fazermos um milhão de garrafas por ano. Mas, deixe-me voltar ao assunto da captação de água.

“Temos aqui a adega, já com capacidade para 1 milhão de quilos de uva, e a fazermos um milhão de garrafas por ano.”

Voltemos então à rega.
Fizemos um investimento brutal de mais de 400 mil euros para ir captar a água do Roxo, entretanto, a EDIA já nos colocou quatro hidrantes para termos água também do Alqueva. Fomos investir mais outros 100 mil euros para fazer a ligação desse sistema de água à nossa charca. Ou seja, estávamos agora preparados para fazer mais um conjunto de investimentos. Até já apresentámos um projecto, que está para aprovação, para fazermos um lagar.

Onde faz agora o azeite?
Estamos a fazer o azeite num lagar que fica em Ferreira do Alentejo, na Herdade de S. Vicente.

“[O lagar] um investimento de 7 a 8 milhões de euros.”

Vai construir o lagar de raiz?
Sim, um investimento de 7 a 8 milhões de euros. Estou convencido que com este crescimento brutal que temos tido na produção de azeite é uma área que não nos pode falhar. Temos hoje uma produção com bom prestígio. Exportamos azeite para o Brasil, temos hoje uma aceitação muito grande, mas porque o nosso azeite também já está num patamar mais elevado. E este ano vamos fazer um ainda superior. Vamos fazer uma experiência com um azeite premium que possivelmente vai entrar nas lojas francas dos aeroportos.

“Há uma fúria de gente neste País para criar constrangimentos e dificuldades.”

O caricato disto tudo é que estamos com capacidade para aumentar a nossa produção e íamos fazer mais 110 hectares de olival, mais 25 hectares de fruta e o lagar, são estes os projectos que temos em curso. Hoje o número de dificuldades para fazer a área agrícola é brutal, não dá para imaginar. Ou é porque passa aqui o caminho das abetardas, ou não sei quê.

Ainda há dias um amigo meu de Elvas dizia “sou alentejano e nunca vi uma abetarda, nem sei onde elas andam…”. E estar a impedir este projecto agora que só nos falta passar a manga dos gotejadores para a rega, que é o mais barato, quando o mais caro, que é a bombagem e a conduta está feito… Agora dizem-nos que não podemos fazer isto? Este País está doido? Para haver crescimento é preciso de haver investimento. Mas sei que isto não se passa só connosco. Há uma fúria de gente neste País para criar constrangimentos e dificuldades. Eu não quero fazer barbaridades, não é disso que se trata, quero é ver as coisas que são importantes para o desenvolvimento do País.

No olival é fácil aumentar, agora no vinho…

Ah, sim. Desses 110 hectares de olival que estamos a querer fazer agora estamos com uma dificuldade tremenda.

Qual?
Deixe-me fazer esta declaração, que às vezes posso ser mal entendido. Sou dos maiores defensores das questões ambientais, basta dar uma volta a esta propriedade, onde já vieram ambientalistas de méritos reconhecidos e todos nos deram os parabéns. Hoje até sou defensor que em Portugal fizéssemos uma viragem para nos assumirmos como um País verde, um País ecológico, porque o nosso futuro passa muito por aí.

Há uma área que ando a pensar que é a da saúde. Onde podemos ser uma referência. A par disso, imagine que tomávamos a iniciativa de sermos dos primeiros países em que só havia carros eléctricos. Sei que isto não se faz de um dia para o outro, era preciso ter uma estratégia para isso. Mas, se fizéssemos essa aposta, até em termos internacionais não precisávamos de fazer muitas campanhas. Só esse facto já era uma campanha.

Mas o que passa com o projecto do olival?
O olival, dentro da área desta nossa propriedade temos uma série de restrições de reserva ecológica. Eu acho que faz sentido que exista, mas não é incompatível com as culturas e com o desenvolvimento agrícola. O que queremos fazer é mesmo para desenvolvimento agrícola. O que é absurdo é eu criar todas as condições para a expansão do negócio agrícola e de repente dizerem-me ah, ali não pode porque há passarinhos, ali também não porque há passarocas e ali passarões. Faz-me um bocadinho de confusão.

O motivo de querermos fazer o lagar aqui dentro é justamente para estar tudo encadeado. Porque eu com os 170 hectares de olival não tenho dimensão que justifique o lagar. O lagar é feito a pensar que vamos fazer mais 110 hectares de olival, que vamos comprar azeitona fora e ainda mais uma coisa, que vamos ter uma segunda etapa para fazer mais de 200 hectares de olival.

“O motivo de querermos fazer o lagar aqui dentro é justamente para estar tudo encadeado.”

Não ultrapassando já esses problemas, avança na mesma para a construção do lagar?
Eu estou absolutamente convencido que vou resolver esses problemas. Este hotel foi muito difícil de construir mas está cá feito. Um dos projectos mais difíceis que tivemos para aprovar, que hoje é uma peça em que tenho uma vaidade tremenda, que é o Vila Galé Albacora, em Tavira, também foi dificílimo, eram 15 entidades para dar o parecer. E hoje é dos hotéis mais emblemáticos, é um edifício classificado, era o último arraial da pesca do atum. Fizemos lá o museu da pesca do atum, não estragámos nada. O Parque Natural é que sempre nos arranjou guerra.

Bem, esse hotel é uma boa demonstração da nossa capacidade para fazer restauração. O Palácio dos Arcos, idem, o nosso hotel da Ericeira, o do Rio de Janeiro… Agora de uma assentada vamos desenvolver o de Elvas e possivelmente o aproveitamento das instalações da Coudelaria de Alter – que o Governo quer pôr a concurso para quem queira fazer aproveitamento hoteleiro. Nós até temos aqui muito desenvolvimento nesta área dos cavalos. E temos mais.

Mas pode-se dizer que o avanço para esse investimento de 7 a 8 milhões de euros está dependente desses problemas burocráticos?
Claro. Tem de estar aprovado. Mas, temos também de submeter um projecto de apoio ao Proder, que penso estarem fechadas agora mas que vão abrir novamente em Novembro.

Depois de entregar a candidatura avança?
Não. Para construir se não estiver aprovado não podemos avançar.

“Não digo que se liberalize completamente a produção do vinho, mas que se alargue, que vá havendo um plano b para continuar a crescimento.”

vg-clube-de-campo_adega_1E no vinho? Como ultrapassam o problema dos direitos de vinha para aumentarem a produção?
Neste momento está completamente fechado, não se pode plantar nada aqui. Uma situação que eu não entendo. O vinho português em geral melhorou incrivelmente. Hoje vai a um supermercado e é difícil encontrar um mau vinho. Os vinhos melhoraram muito na qualidade. Não digo que se liberalize completamente a produção do vinho, mas que se alargue, que vá havendo um plano b para continuar a crescimento.

Mas como vai fazer esse aumento? Compra vinhas?
Comprar vinhas, as podas, isso é fácil, difícil é ter direitos de plantação. E não há.

Então como faz o aumento da vinha e de produção?
Não sei. Estou convencido que vão abrir o mercado outra vez. Agora que o vinho português está a ter uma boa notoriedade, uma boa imagem de marca, também vão parar a produção, não se pode fazer vinhas novas?

É por isso que vai já apostar no azeite?
Bem, nós no vinho temos a possibilidade de continuar a crescer comprando uvas fora.

Ainda no vinho, que pensa do novo imposto de que se fala sobre o vinho? Que impactos pode ter na produção e na exportação?
Sobre isso, todos os esquemas que os países precisem para se organizarem, para terem receitas, acho que fazem todos sentido. O que não faz sentido é mesmo por onde começámos a nossa conversa. É estarmos sempre a ser surpreendidos com notícias desagradáveis. Nós, Vila Galé, somos viciados em investimentos e vamos fazendo coisas. Agora imagine um investidor estrangeiro que consulte uma empresa a dizer que quer vir para cá para o sector do vinho e lhe dizem, olhe está para vir um novo imposto.

Se dissermos que temos aqui um plano de investimento, uma estratégia, para os próximos cinco ou dez anos e vai acontecer isto e isto e isto. O imposto até podia ser mais pesado. Estão sempre a sair coelhos da cartola. Eu ainda não sei que imposto é esse, nem fui ver bem o que vai ser. São coisas que passam uma imagem de instabilidade e de insegurança para os investidores, sejam nacionais ou estrangeiros.

Voltando atrás, quando comprou as herdades para fazer o Hotel Vila Galé Clube de Campo, aqui em Beja, já pensava desenvolver tanto a área agrícola?
Não. A ideia era fazermos alguma coisa na área do vinho, termos uma marca própria para termos nossos hotéis. Mas correu bem, hoje até já exportamos vinho. O nosso principal mercado é o do Brasil, mas também exportamos para Angola, Moçambique, Suíça, Luxemburgo, Alemanha, Dinamarca, Polónia, vários países.

Agricultura e Mar Actual

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Um comentário

  1. Roberta Morais

    Bem , interessante o propósito deste grupo, haja vista que a agricultura muito ativa em seu país.

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