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Investigadores da Universidade do Porto criam alternativa às tintas anti-incrustantes em embarcações

Investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto, e docentes da Faculdade de Farmácia da U. Porto e da Faculdade de Ciências da U. Porto estão a desenvolver novas substâncias inspiradas em produtos sulfatados de origem marinha, capazes de impedir a bio-incrustação em embarcações e com um reduzido risco ambiental. Este é o objectivo do estudo publicado esta semana na conceituada revista Scientific Reports do grupo Nature.

A equipa de investigação desenvolveu uma metodologia para sintetizar eficazmente novas substâncias inspiradas em produtos marinhos e demonstrou a eficácia destes produtos no combate à bio-incrustação, com reduzido risco ambiental. “As substâncias sintetizadas apresentaram resultados promissores na inibição da adesão de larvas de mexilhões a estes substratos, uma das espécies de invertebrados mais problemática no processo de incrustação, sem demonstrarem toxicidade face a um invertebrado não alvo – Artemia salina”, explica Joana Reis de Almeida (CIIMAR), primeira autora do artigo.

O mexilhão é uma das espécies principais associadas à bio-incrustação dada a sua abundância, eficácia de colonização e fixação e tamanho dos indivíduos. Todos estes factores contribuem para que esta espécie colonize rapidamente e seja difícil de remover das estruturas submersas. Os investigadores deste estudo consideram que os revestimentos mais ecológicos serão aqueles que inibem a fixação inicial dos estados larvares adesivos, tanto por sinais químicos repelentes interpretados pelas larvas, como pela própria acção destes nos mecanismos adesivos das mesmas.

O CIIMAR tem procurado identificar tecnologias anti-incrustantes mais ecológicas e menos tóxicas para combater a bio-incrustação marinha, através da linha de investigação Novelmar do projeto InnovMar, financiado pelo Norte 2020 e do projecto “Overcoming environmental problems associated with antifouling agents: synthesis of Nature-inspired nontoxic biocides and immobilization in polymeric coatings”, financiado pela FCT (PTDCC/AAG-TEC70739/2014/POCI-01-0145-FEDER-016793).

Nos últimos anos tem-se verificado, que alguns produtos naturais marinhos se apresentam como fontes promissoras de agentes anti-incrustantes, no entanto, a sua origem em fontes naturais dificulta a sua produção em grande escala. “A síntese química é preferível à recolecção dos organismos do meio natural e à extracção dos compostos activos, por ser mais sustentável e amiga do ambiente, evitando a exaustão dos recursos naturais” refere Marta Correia da Silva, coordenadora deste estudo.

A investigadora do CIIMAR e docente da FFUP refere ainda que “este estudo abre assim caminho para o desenvolvimento de novos revestimentos anti-incrustantes amigos do ambiente”.

Problemática da “bio-incrustação”

A bio-incrustação marinha consiste na aderência de diversas espécies de micro e macro-organismos, como bactérias, algas, mexilhões, às superfícies artificiais submersas no mar, como navios, plataformas offshore, sensores, etc. É um fenómenos que causa sérios problemas e grandes investimentos para a indústria marítima em todo o mundo, tanto na sua prevenção como controlo. Para além de provocar um aumento da corrosão de todos os materiais submersos, afecta também as actividades ligadas à navegação (diminuindo a velocidade do navio e aumentando o consumo de combustível), aquacultura (colmatação das redes e competição por alimento), energias marinhas (colmatação de tubagens de permutadores de calor), entre outras.

As tintas à base de TBT (tri-butil estanho) cujo uso foi restringido pela Comunidade Europeia em 1989, vindo a ser totalmente proibido em 2008 são muito nocivas para o meio ambiente, por serem tóxicas, acumularem nos organismos e concentrarem-se ao longo das cadeias alimentares, afectando também, em última análise, o ser humano. Estas interferem também com o sistema hormonal dos organismos, provocando inclusivamente mudanças de sexo e causando obesidade.

Em alguns países com poucos recursos, onde a regulamentação/ fiscalização/ sensibilização são menores, as tintas à base de TBT ainda são usadas, devido à sua enorme eficiência e baixo custo. No entanto, navios assim revestidos estão proibidos de entrar em águas e portos Europeus. Actualmente as embarcações são revestidas por polímeros à base de biocidas que combinam o cobre com pesticidas e herbicidas utilizados na agricultura, sendo ainda tóxicos para o meio ambiente. Urge desenvolver uma alternativa com capacidade de repelir ou inibir a fixação dos organismos, sem causar a sua morte nem provocar efeitos tóxicos.

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4 comentários

  1. A nossa empresa localizada na África do Sul, colaborou há já algum tempo com um grupo comercial brasileiro que fez testes numa embarcação de pesca, com este mesmo objectivo, com resultados bastante positivos.
    O nosso produto é um tecido de fibra de vidro muito leve, 20 gr/m2 de construção monofilamentar continua, que por si só não permite o desenvolvimento de fungos, micro-organismos e no caso específico do teste efectuado a incrustaçao de cracas, mexilhões etc. durante o período de submersão, quando as áreas onde o produto não foi aplicado, estas incrustações verificarm-se. Isto para além da corrosão do substrato metálico. Gostaria de trocar impressões convosco visto o nosso produto precisar de um veículo de aplicação, que neste momento são as tintas que referiram com os inconvenientes conhecidos. A nossa empresa não produz tintas.
    Estamos prestes a inaugurar uma moderna fábrica em Vagos e mantemos estreita colaboração com a Universidade’s institutos científicos.
    Achamos o vosso artigo muito interessante.

  2. Elisabete Silva

    Boa tarde,

    Sou Investigadora na Faculdade de Ciências e a nossa equipa colabora neste projeto promissor precisamente na imobilização das novas substâncias sintetizadas pela equipa da Universidade do Porto. Os vossos resultados são muito interessantes e é possível a imobilização de fibras em tintas com a otimização adequada. Estamos interessados em discutir este assunto convosco.

    Pode ligar por favor para o centro onde pertenço (+351 217 500 075 ou +351 217 500 828) e logo passarão para mim. Poderá encontra-me com mais facilidade, segundas e sextas.

    Obrigado.

  3. Estou a procura de formas menos danosas a natureza de evitar a bio-incrustação, ficaria muito feliz com contato.

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