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Investigação: óleo de cannabis é mais eficaz no tratamento da depressão que remédios tradicionais

Investigadores brasileiros e dinamarqueses observaram num estudo que uma única aplicação de óleo de cannabis em ratos com sintomas depressivos apresentou efeitos muito significativos, com remissão de sintomas de depressão no mesmo dia e a manutenção dos efeitos benéficos durante uma semana.

Relembre-se que a autarquia de Nelas, anunciou, no passado dia 24 de Agosto, que vai receber a primeira fábrica de óleo de cannabis. A Câmara cedeu à empresa Endopure um lote de terreno de 5.000m2 na Zona Industrial de Nelas, local onde esta empresa vai construir um pavilhão industrial de 2.000m2, empregar mais de 21 postos de trabalho, sobretudo mão-de-obra licenciada, e investir cerca de 5 milhões de euros.

Os resultados foram publicados em artigo na revista Molecular Neurobiology (estudo aqui) por investigadores do grupo liderado por Sâmia Regiane Lourenço Joca, professora na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP).

Explicam os investigadores que os antidepressivos comerciais costumam demorar de duas a quatro semanas a ter efeitos significativos em pacientes deprimidos. Além disso, “tais drogas são ineficazes em boa parte dos casos”, dizem os cientistas.

Estudos em humanos

Mas, os cientistas não se vão ficar pelo estudo e ratos. “As nossas evidências indicam que esses efeitos ocorreriam por induzir alterações neuroplásticas no córtex pré-frontal e no hipocampo, estruturas envolvidas no desenvolvimento da depressão. Como o óleo de cannabis é usado em humanos para tratamento de outras condições médicas, acreditamos que possa ser estudado também em humanos, em um futuro breve, para o tratamento da depressão”, disse Sâmia Regiane Lourenço Joca.

Novos antidepressivos de acção rápida e duradoura

Encontrar novos antidepressivos de acção rápida e duradoura é o objectivo da investigação colaborativa conduzida por cientistas do Estado de São Paulo e da Dinamarca, que afirmam que o trabalho “reforça estudos anteriores de que o óleo de cannabis, um componente da marijuana (Cannabis sativa), tem potencial terapêutico promissor no tratamento da depressão de amplo espectro em modelos pré-clínicos e humanos”.

A pesquisa, que teve como primeira autora Amanda Juliana Sales, bolseira de doutorado da FAPESP — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, também contou com o apoio da Fundação por meio de um Projeto Temático, do CNPq e da dinamarquesa Aarhus University Research Foundation.

As pesquisas com óleo de cannabis estão ligadas ao grupo do professor Francisco Silveira Guimarães, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. Participa ainda Gregers Wegener, professor no Departamento de Clínica Médica da Aarhus University.

Lutar contra o preconceito

“O Brasil é pioneiro no estudo do óleo de cannabis e hoje é muito diferente do que há 30 anos, quando começámos a investigar essa substância. Na época, enfrentávamos o preconceito por causa da associação com a maconha”, disse Francisco Silveira Guimarães à Agência FAPESP.

Apesar de extraído da marijuana, Guimarães ressalta que o óleo de cannabis não produz dependência nem efeitos psicotrópicos. “A substância na maconha responsável por tais efeitos é o tetraidrocanabinol (THC) e com o óleo de cannabis ocorre o oposto, ele exerce uma acção bloqueadora sobre alguns efeitos do THC”, disse ainda quele investigador.

Para Francisco Silveira Guimarães, os antidepressivos disponíveis obtêm resultados em cerca de 60% dos pacientes, de modo que cerca de 40% dos pacientes permanecem sem receber o tratamento adequado, mesmo após tentarem diversas opções por vários meses. “Isso revela a necessidade de encontrarmos novos tratamentos, com melhor potencial terapêutico”, disse aquele professor.

Linhagens de ratos seleccionadas

O experimento foi feito com linhagens de ratos e camundongos (rato-doméstico) seleccionadas por cruzamento para desenvolver sintomas de depressão. Foram feitos testes e analisado o comportamento de 367 animais.

“Submetemos os animais a situações de stress, como o teste de nado forçado”, disse Sâmia Regiane Lourenço Joca, que também é professora visitante na Aarhus University.

Antes do teste, uma parte dos animais recebeu uma injecção de óleo de cannabis (com dosagens de 7, 10 e 30 mg/kg) em solução salina, enquanto a outra parte dos animais, o grupo de controle, recebeu apenas a solução salina.

Após 30 minutos, os animais foram colocados por 5 minutos em cilindros (25 cm de altura por 17 cm de diâmetro) com 30 cm de água (no caso dos ratos) ou 10 cm de água (camundongos).

“Essas alturas impedem que eles apoiem a cauda no chão, forçando-os a nadar. No entanto, os animais aprendem a boiar após um tempo de nado e não se afogam. Quando estão a boiar, os movimentos são mínimos, apenas para manter a cabeça fora da água e garantir que não se afoguem. É justamente isso que consideramos imobilidade, ou seja, quando param de nadar e boiam”, disse ainda a professora.

Avaliar o efeito de drogas antidepressivas

“O teste de nado forçado é utilizado para avaliar o efeito de drogas antidepressivas, uma vez que todos os antidepressivos conhecidos diminuem o tempo de imobilidade durante o teste (aumentam o tempo de nado). Portanto, a diminuição do tempo de imobilidade nesse teste é interpretada como efeito ‘tipo antidepressivo’”, acrescentou.

Os cientistas constataram que o óleo de cannabis induziu efeitos semelhantes a antidepressivos agudos e sustentados nos camundongos submetidos ao teste de nado forçado.

Recuperação de circuitos neurológicos

A conclusão do trabalho foi que o tratamento com óleo de cannabis induz efeitos rápidos e sustentados, que permanecem por até sete dias após uma única administração, em animais submetidos a diferentes modelos de depressão (incluindo modelos de stress e modelos de susceptibilidade genética).

Os dados encontrados foram reproduzidos em três modelos animais diferentes, em laboratórios na FCFRP, na FMRP, ambos na USP, e na Aarhus University.

Sete dias após o tratamento, foi possível observar aumento do número de proteínas sinápticas no córtex pré-frontal, que está intimamente relacionado à depressão em humanos. “Diante disso, acreditamos que o óleo de cannabis inicie rapidamente mecanismos neuroplásticos que contribuem para recuperar circuitos neurais que estão prejudicados na depressão”, refere Sâmia Regiane Lourenço Joca.

Leia os artigos aqui:

O artigo Cannabidiol Induces Rapid and Sustained Antidepressant-Like Effects Through Increased BDNF Signaling and Synaptogenesis in the Prefrontal Cortex, publicado na Molecular Neurobiology, pode ser lido aqui.

O artigo Antidepressant-like effect induced by Cannabidiol is dependent on brain serotonin levels, publicado na Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, pode ser lido aqui.

Ver também:

Concelho de Nelas vai ter a primeira fábrica de óleo de cannabis em Portugal

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